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A morte de Walter Becker desfez uma dupla genial

11 / set
Publicado por José Teles às 0:37

Walter Becker e Donald Fagen

Leu-se pouco na imprensa brasileira sobre a morte, em 3 de setembro, do guitarrista e compositor americano Walter Becker, aos 67 anos, de causas não informadas. Becker, e o tecladista, cantor e compositor Donald Fagen, formavam o núcleo do Steely Dan, uma das bandas mais importantes da história do rock.

A obra do Steely Dan não tem paralelos, nem parâmetros, Becker e Fagen uniram suas idiossincrasias para criar uma música original, com arranjos sofisticados, harmonias complexas, mais próximas do jazz do que do pop, com letras que pareciam ter sido escritas pelo jornalista talentoso e maluco Hunter S. Thompson. Um coquetel tão bem misturado que tem quem o curta como uma banalidade pop a mais.

Deacon Blues, um dos seus hits, com mais dissonâncias do que qualquer clássico da bossa nova, com uma melodia contagiante, conta a história de um cara que pretende se dar bem como músico de jazz, para se dar mal depois, afundado em drogas, e tornando-se um anti-herói: “Vou aprender a tocar saxofone/e tocar exatamente o que sinto/Entornar scotch a noite inteira/e morrer por trás de uma direção”, o refrão da canção (do álbum Aja, de 1977). Não é o tipo de letra que se escuta normalmente em música pop.

No ótimo Eminent Hipsters, livro autobiográfico que lançou em 2013, com diários de turnês, e reminiscências de épocas diversas de sua vida, Donald Fagen relembra como conheceu Walter Becker, na faculdade de Bard, Nova Iorque. Numa tarde, ele foi até o Red Baloon, um clube no campus, e escutou um som de guitarra “Mas não era do tipo surfadelic, coisa de menino branco que eu estava acostumado a escutar de outros estudantes que tocavam guitarra. Aquele cara tinha um toque de blues autêntico, e um vibrato convincente … lá dentro, tocando uma Epiphone, estava um cara sério, de óculos, que seria meu parceiro pelos próximos 40 anos”.

Os dois comungavam dos mesmos gostos literários e musicais, iam de Nabokov, Kurt Vonnegut a policiais noir, ficção cientifica de Howlin Wolf a Laura Nyro e Frank Zappa e, sobretudo, jazz. Uma dupla gauche. Em um dos primeiros shows, Donald Fagen destruiu um teclado Fender Rhodes, que tomou emprestado a uma amiga. Arrasado, ele saiu do palco, e abandonou Walter Becker, sem saber que o amigo tinha ingerido uma dose cavalar de LSD e estava em plena viagem. Em 1969, foram presos por posse de drogas, com dezenas de estudantes, num arrastão policial na faculdade, na maré de conservadorismo do governo Nixon.

O Steely Dan não trafegava na contramão, pavimentou seu próprio caminho. Um dos grupos mais atípicos do rock, música complexa, arranjos burilados, de maneira quase artesanal. Angariou simpatia dos músicos de jazz, como Wayne Shorter e Larry Carlton, que tocaram com o SD. Quando faziam discos, Becker e Fagen arregimentavam o melhor que havia em músicos de estúdio.

Can’t Buy A Thrill, (1972), Countdown To Ecstasy (1973), Pretzel Logic (1974), Katy Lied (1975), The Royal Scam (1976), Aja (1977) and Gaucho (1980) integram uma das mais refinadas obra de qualquer banda, em qualquer época. A vida pessoal da dupla era comparável a dos personagens de suas canções. Walter Becker virou junkie de carteirinha, sua namorada morreu de overdose no apartamento dele. Em 1981 a dupla separou-se.

Fagen e Becker botaram o Steely Dan em campo novamente em 1993, lançaram mais dois, muito bons, discos de estúdio Two Against Nature (2000), e Everything Must Go (2003), mais dois ao vivo, Alive  in America (1995) e Plush TV Jazz-Rock Party (2000). O primeiro arrebatou todos os prêmios importantes da música americana. Fizeram bem em parar por ai. Walter Becker não mantinha mais a mesma forma nos últimos anos.

“Walter Becker era eficiente como açoite de um chicote, um guitarrista excelente e um grande compositor. Era cínico a respeito da natureza humana, incluindo sua própria natureza, e histericamente divertido”, comentou Donald Fagen em sua página pessoa, prometendo continuar com música que fizeram juntos até quando puder tocar com o Steely Dan. Seja lá que tretas aconteceram entre eles, Fagen sempre se referiu ao Walter Becker com elogios.

Confiram o Steely Dan em Deacon Blues:

 


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