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Van Morrison em golpes certeiros de blues e r&b

25 / set
Publicado por José Teles às 10:27

O Irlandês Van Morrison estava com 17 anos, em 1962, quando foi arrastado pelo blues e rhythm and blues, caiu na estrada e nela continua há 55 anos. Dos grandes dos anos 60, ele foi dos mais beneficiados pelo tempo. É uma espécie de João Gilberto. Usa a voz de uma forma única, nas divisões, nas inflexões. Não é só um entertainer, e é igualmente pródigo em idiossincrasias. Exige, por exemplo, máxima atenção da plateia. Está se entregando a ela, é quer também entrega. Não permite que se coma ou se beba nas apresentações em lugares fechados.

Enquanto os cantores ingleses de sua geração esforçavam-se para emular blueseiros americanos, o blues e o soul lhe chegam naturalmente. Em Roll with the Punches (Caroline Records), seu 37º álbum, solo, Van Morrison volta ao blues, soul e rhythm and blues, com cinco canções autorais, e dez regravações, a maioria de clássicos, muitos manjados. Morrison, no entanto, tem um approach jazzístico em suas interpretações. Ele nunca grava nada parecido com o original, e no palco nunca canta da mesma maneira como gravou.

É assim que ele consegue recriar Bring it on Home to Me, de Sam Cooke, uma canção com centenas de regravações, a música perde a facilidade pop original, para se tornar um soul no estilo Volt/Stax (onde Aretha Franklin e Otis Redding gravaram seus melhores discos nos anos 60). Outra ene vezes regravada é I Can Tell (Bo Diddley/Samuel Bernard Smith), que ganha uma interpretação que se afasta dos maneirismos de Bo Diddley.

Conhecedor da linguagem, Van Morrison faz blues e rhythm and blues com autoridade, aproximando-o do jazz, como acontece em Too Much Trouble, uma das composições assinadas por ele. How Far From God, um hit de Sister Rosetta Tharpe, de 70 anos atrás, tem uma das melhores interpretações do álbum, com Van Morrison se guiando pela cartilha do blues tradicional. Na verdade, é difícil enfatizar faixas, Morrison se supera a cada interpretação. Goin’ to Chicago, de Count Basie e Jimmy Rushing, torna-se um blues elétrico, mas com elementos de jazz das Big Bands.

Por mais que Van Morrison reverencie o blues, ele consegue imprimir sua marca mesmo nos números mais tradicionais, feito faz em Automobile Blues, de Lightnin’ Hopkins. Na apresentação do disco, resume sua relação com o blues, e com a música em geral: “Não se disseca o blues. Baste cantá-lo. Nunca analiso o que canto, apenas canto”, palavras de quem começou a cantar blues desde os 14 anos, e conviveu com quase todos os mestres do gênero: John Lee Hooker, Jimmy Witherspoon, Bo Diddley, Little Walter & Mose Allison.

Roll with Punches foi produzido por Van Morrison, com participação de gente que também entende de blues, Chris Farlowe, Georgie Fame, Jeff Beck, Paul Jones and Jason Rebello.

A título de  curiosidade, Van Morrison já fez incursões pela luta livre, mas não se deu muito bem. A agora novamente se dá mal. Billy Two Rivers, um dos lutadores que aparecem numa das duas versões da capa do álbum, processou a Universal Music, que distribui o disco, por uso indevido de imagem.

Confiram Van Morrison em Bring it on home to me:

 

 

 


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