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Lições de carnaval pelo método sem noção (1) – Maracatus, dos baques

07 / jan
Publicado por José Teles às 12:04

xilografura: Marcelo Soares

O carnaval pernambucano é vendido pela diversidade. Não de artistas de MPB e rock que cantam pelos polos espalhados pelo estado. Aí é o que se chama de multicultural. Diversidade a que me refiro é a de ritmos. Tem os gêneros musicais propriamente, e as manifestações populares que também têm seu ritmo, algumas até viraram gêneros, feito o caboclinho, que também tem uma coreografia com uma infinidade de passos.
O supracitado Urso tem duas modalidades, uma delas, o Pé de Lã. A diferença entre eles é que o Urso tradicional sai só no carnaval, enquanto o Pé de Lã sai o ano inteiro.
Ouso iniciar uma espécie de curso à distância, de ritmos carnavalescos pernambucanos, começando pelo maracatu que, por sinal, está sendo centro de uma polêmica.
Porém cá não estou para polemizar, apenas para contar a coisa como a coisa aconteceu, até onde pode ser contada.

MARACATU DO BAQUE SOLTO

Certa vez estava eu em Salvador, numa edição do festival PercPam (acho que em 2000), e rolou um cortejo de cultura pernambucana na abertura, na Praça do Campo Grande. Quem organizou a coisa foi Erasto Vasconcelos. No cortejo havia caboclos de lança. Quando eles iam passando, entreouvi de um baiano: “Olha ali os cara vestidos de Chico Science”.
Muita gente pensa que quem inventou o maracatu de baque solto, de orquestra, ou de trombone, foi Chico. Não foi claro.
Chico foi o primeiro artista pernambucano a atentar para a plasticidade dos maracatus rurais, e ajudou a populariza-los no estado,e no mundo.
Antes disto, se alguém falasse em caboclo de lança aqui, o pessoal pensava que se tratava de um caboco, no Carnaval de Olinda, com um lança perfume na mão.
O maracatu de baque solto é um dos mais fascinantes e complexos inventos lúdicos do povo brasileiro. Tão complexo, que não tem variações, não dá pra estilizar. Não existe maracatu rural universitário, pelo nunca vi um. Mas é capaz de ter, que no Recife tá acontecendo de um tudo.

MARACATU DO BAQUE VIRADO

Existem pelo menos quatro variantes deste estilo de maracatu. Além do baque virado, o do baque preso, que é tocado por umas moças, muito bem educadas, que batem suavemente nas alfaias, pra não fazer muito barulho, para não perturbar a vizinhança que está vendo Faustão ou a novela.
Tem ainda o maracatu universitário, que é aquele que mistura o de baque virado com o do baque solto, porque não aprendeu direito no mestrado a distinguir um do outro.
Por fim, mas não menos importante, há o maracatu retardado (cantado inclusive por Antonio Maria, no Frevo n° 2 do Recife),
aquele em que cada integrante bate de um jeito. É o que os intelectuais metidos, ou cabeças, chamariam de maracatu atonal, ou experimental.

(a xilogravura que ilustra estas mal tecladas é de Marcelo Soares, filho do grande José Soares “O Poeta Repórter”: http://marcelosoares.org


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