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Getúlio Côrtes chega hoje aos 80 anos, lançando primeiro álbum solo

22 / mar
Publicado por José Teles às 14:25

‘Construí um anexo no quintal da minha casa, em Madureira. Ficava lá, fazendo minhas coisas, e tinha um gato que não parava de me perturbar. Eu tacava pedra nele, ameaçava matar, e nada. O bicho lá, me olhando. Terminei me inspirando nele para fazer uma música. Não pensei que fosse gravar porque gato preto dá azar. Renato, dos Blue Caps, ouviu e disse que ia gravar. Naquele tempo o conjunto tinha ainda Erasmo Carlos como crooner. A música serviria mais como enchimento de linguiça do disco do conjunto. Roberto soube que eu era compositor e me pediu uma música e fiz Noite de terror, que está no disco dele de 1965. Depois de gravar mais músicas minhas, ele me disse que ia gravar o Negro gato do jeito dele. Neste mesmo disco, de 1966, gravou também O gênio. Fui o único compositor com duas músicas num disco de Roberto’, orgulha-se o carioca Getúlio Côrtes, personagem importante e pouco lembrado da Jovem Guarda.

Getúlio chega hoje aos 80 anos, e comemora também o lançamento do primeiro álbum solo (com produção de André Paixão, direção artística de Marcelo Fróes), com muita história para contar,

Quando era morador de Madureira, Zona Norte do Rio, como a maioria da turma da Jovem Guarda, Getúlio começou com um conjunto de rock, que não foi muito longe, os Wonderful Boys, em 1962. Tocava um repertório de sucessos do rock americano. ‘Nesta época, conheci Ed Wilson. Ele soube que eu estava na música e pediu que passasse na casa dele na Piedade, perto de onde eu morava. Eles começavam o grupo – Ed, Renato e Paulo Cesar, que são irmãos – e me convidaram para ser o roadie, naquele tempo se chamava contra-regra, o cara que fazia tudo, carregava o equipamento. O pior do trabalho era levar o baixo de Paulo César, que era enorme e pesado’, conta Getúlio, por telefone.

Como Renato e seus Blue Caps gravavam na CBS, ele passou a frequentar a gravadora, que tinha no elenco quase todas grandes estrelas do iê-iê-iê: ‘Conheci o pessoal quando a coisa ainda estava engatinhando, ninguém sabia no que ia dar. Quando pensaram no programa Jovem Guarda, queriam Celly Campelo com Roberto e Erasmo, ela não aceitou porque achou que ia levar eles dois nas costas. Os nomes naquele tempo eram Sergio Murilo, Tony Campello. A gente fazia tudo mais pela empolgação, eu mesmo ganhava muito pouco. Ninguém fala, mas na Jovem Guarda tinha discriminação com preto. Participei do programa como ajudante de Carlos Manga, que dirigia o Jovem Guarda, por indicação de Roberto’. Filho de pai militar (do embrião da polícia militar, então ligada ao governo do Estado da Guanabara), Getúlio Côrtes é irmão de Gerson King Combo, um dos pioneiros da black music no Brasil.

Depois do Negro Gato, o bem-humorado carioca, passou a fazer músicas com histórias engraçadas, contraponto as canções românticas o grosso do repertório do iê iê iê: ‘Eu lia muito revista em quadrinhos, vinha daí as influências das minhas músicas. Lia muito histórias de horror, e foi daí que tirei o Frankenstein, de Noite de terror, que Roberto gravou’, conta Getúlio, que passou a contribuir com pelo menos uma música nos LPs de Roberto Carlos. Grande parte composta sozinho, algumas com parceiros: ‘O feio surgiu de uma ideia de Renato, de um cara que ele conhecia. Ele fez a maior parte, eu completei. Minhas músicas têm sempre uma história, como começo meio e fim. Pega ladrão, por exemplo, eu estava num trem e pegaram o cordão de um rapaz. A letra fala do broto no portão, não dava para pôr o trem ali’.
O único instrumento que ‘arranhou’ foi bateria, ainda nos tempos dos Wonderful Boys. As melodias ele cria cantarolando, e levava para alguém transcrever: ‘Quem passou muita música minha para o papel foi o maestro Pachequinho. Ele tocava no piano e ia me dando orientações. Demorava mais para botar letra. Para fazer música precisa ter criatividade, talento’, diz. Na Jovem Guarda, outros cantores emplacaram nas paradas com composição de Getúlio. Um deles foi Bobby di Carlo com Cuidado pra não derreter. A lista é longa e abrangente. Inclui duplas como Leno Lilian e Os Vips, aos ídolos do iê iê iê recifense Reginaldo Rossi e Luis Carlos Clay, até Toni Tornado e o

Raça Negra, passando por Wanderléa, Erasmo Carlos, Golden Boys, Fevers, Renato e seus Blue Caps, Raul Seixas, Titãs, Léo Jaime, e Luis Melodia, que ganhou o epíteto Negro Gato, depois que incorporou a canção de Getúlio Côrtes ao seu repertório. Mas apenas o que compôs para Roberto Carlos já lhe garantia um espaço confortável na história da MPB, e torna ainda injusto o ostracismo imposto a Getúlio Côrtes: “Roberto foi mudando, e chegou uma hora em que não queria mais gravar músicas feito O sósia, que fiz com Renato, ou Pega ladrão. Ele pediu e eu entrei na parte romântica. Fiz O tempo vai apagar, com Renato Barros, que botou o nome do irmão, Paulo César para ajudar ele”, revela.

O tempo vai apagar (de O inimitável, 1968), está no disco que tornou a música de Roberto Carlos palatável também para adultos. Até então era considerado um cantor do público adolescente. É uma das composições mais regravadas de Getúlio (até a banda de forró eletrônico Mastruz com Leite fez uma versão), que se gaba de ser o único autor, fora Erasmo Carlos, naturalmente, a ter duas composições num mesmo álbum de Roberto Carlos. A outra é também um clássico do repertório de RC, Quase fui lhe procurar: “No ano seguinte, Roberto gravou uma música de que eu não gosto, não pensei que ele fosse gravar, e que fosse tocar no rádio’, diz, referindo-se à elogiada Nada tenho a perder, lançada por Roberto Carlos em 1969.

Mesmo ídolo nacional, perseguido pelas meninas quando ousava sair à rua, precisando de guarda-costas para entrar e sair do teatro onde gravava o Jovem Guarda, Roberto Carlos ainda arranjava tempo para conversar e sair com os amigos. Getúlio Côrtes fazia parte do circuito de amizades do Rei, frequentava a casa dele: ‘Ele me chamava de Negro gato, e eu chamava ele, ainda chamo, de Charles. Deixamos de nos ver nos anos 70, ele foi ficando muito grande, cheio de assessores. Eu poderia ligar, mas não quero ser mais um chato. O estúdio dele é perto de onde moro, mas nem penso em ir lá. Mas nos damos bem, é um cara que eu adoro. Há uns 20 anos, eu estava numa situação meio chata, fazendo uma casa em Madureira, com uns problemas financeiros, ruim mesmo. Roberto estava em Nova Iorque para gravar um disco, e viu um cara que achou parecido comigo. A pessoa que acompanhava ele sabia da minha situação e contou pra ele. Roberto disse que ia me fazer uma surpresa, e regravou Quase fui lhe procurar. Com o que ganhei de direitos autorais tirei o pé do lodo’.
Getúlio Côrtes joga no seleto time dos autores que mais têm composições gravadas por Roberto Carlos. Com ele estão Carlos Colla, Mauro Motta, Helena dos Santos Isolda e Edson Ribeiro. No entanto, estes têm parcerias entre si, enquanto das 13 músicas de Getúlio gravadas por Roberto a maioria foi composta apenas por ele, o que leva a supor que não precise mais mexer uma palha, vivendo da fortuna que recebe de direitos autorais:

“Financeiramente, levo uma vida regular, mas não ganho tanto assim de direitos, isto no Brasil é complicado. Ainda faço uns showzinhos, tenho uma banda. Edson Ribeiro teve nove músicas gravadas por Roberto e morreu duro. Ganhei muito, mas dinheiro é vendaval. Joguei muito, viajei muito, tive muitos carros. Meu primeiro foi um Karman-Ghia, depois comprei um Camaro. Mas gastei mesmo foi com mulher. Dava uma dor de cabeça, rapaz, só casei com 38 anos. Felizmente deu certo, continuo casado até hoje’, conta Getúlio Côrtes, que em março completou 77 anos, e continua compondo: “Tem muita coisa inédita. Não ofereço música a Roberto porque ele quase não grava depois da pirataria. A última composição minha que ele gravou foi Por motivo de força maior, do disco de 1976”.


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