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2018 será um ano decisivo para América Latina e os grupos de energia estão preocupados com a polarização

12 / set
Publicado por Leonardo Spinelli às 17:37

Shell é uma das empresas que compõem o Comitê de Energia e Recursos (Energy and Resources Committee) que apoia e contribue com o think tank americano Dialogue. AFP PHOTO / ALFREDO ESTRELLA

O colunista da revista inglesa The Economist e especialista em América Latina Michael Reid afirmou que o continente enfrenta uma grande incerteza política devido à crescente polarização politica nos seus principais países. Para ele, as dificuldades políticas, a exemplo do Brasil, atrapalham a recuperação econômica, acompanhada da baixa inflação e da melhora dos saldos fiscais ­ – pelo menos em parte no Brasil, que ainda registra um rombo de R$ 159 bilhões e adiou as perspectivas de melhores balanços.

Reid reportou esse cenário numa conversa, este mês, com membros do Energy and Resources Committee do think tank americano Inter-American Dialogue. O Comitê de Energia e Recursos (Energy and Resources Committee) é um grupo selecionado de corporações e organizações que apoiam e contribuem com a Dialogue em assuntos de energia, mudança climática e indústrias extrativistas na America Latina. Entre seus participantes estão a ExxonMobil, Shell, Chevron, Statoil, ConocoPhillps, Sempra Energy, os bancos de desenvolvimento IDB e CAF e o escritório internacional de advocacia Holland & Knight.

O Dialogue avalia que em 2018 os principais países produtores de energia da América Latina realizarão eleições presidenciais e o cenário geral é bem parecido. “Os candidatos centristas em muitos países são fracos, abrindo oportunidades para os candidatos da extrema esquerda e da extrema direita, o que aumenta a polarização política”, afirma a entidade ao revelar a sua preocupação.

No artigo assinado em 7 de setembro na The Economist, o especialista em América Latina Michael Reid avalia que a era das esquerdas no continente acabou mas, ao invés de deixar a vaga para governos de centro-direita, o que tem acontecido é a polarização política.

Ele cita como exemplo as eleições legislativas na Argentina no mês que vem, uma acirrada batalha na província de Buenos Aires, “distrito eleitoral chave”, entre a coalizão de centro-direita do presidente Maurício Macri contra a populista de esquerda e antecessora Cristina Kirchner. O especialista prevê para a Colômbia e Brasil uma luta entre candidatos “relativamente duros” de esquerda e direita. No México, o cenário parece mostrar um referendo a Andrés Manuel López Obrador, “o eterno populista da esquerda nacionalista”.

No México, o cenário parece mostrar um referendo a Andrés Manuel López Obrador, “o eterno populista da esquerda nacionalista”. / AFP PHOTO / PEDRO PARDO

Na avaliação do Dialogue, o “López Obrador é o líder em evidência para as eleições presidenciais que se realizarão em julho de 2018, mas também é amplamente desprezado por muitas das classes médias e superiores do país”. López Obrador tem criticado amplamente as reformas do setor energético do México. Num evento recente co-organizado pelo Dialogue, ele disse que as reformas tocadas no seu país não conseguiram aumentar o investimento e a produção de petróleo, que ele prometeu revisar.

A Colômbia, “onde a produção de petróleo diminuiu sob o atual governo, há um grande número de possíveis candidatos presidenciais para o primeiro turno das eleições em maio. Mas, se no segundo turno, em junho, chegar a dois candidatos da extrema esquerda e direita, a polarização só aumentará. Os analistas acreditam que um presidente de direita provavelmente reviverá o setor de petróleo, introduzindo políticas favoráveis ​​ao investimento estrangeiro”, diz a Dialogue.

No Brasil, “o ex-presidente Lula, líder populista e figura polarizadora, também é um candidato líder para as eleições presidenciais de outubro, apesar de ter sido indiciado por corrupção. As políticas nacionalistas de Lula para o setor de petróleo, em última instância, contribuíram para o declínio da produção de petróleo no país e para o endividamento da Petrobras, enquanto o seu sucessor, de centro-direita, abriu o setor ao investimento privado.”

A entidade lembra ainda que a Venezuela vai enfrentar uma eleição presidencial no próximo ano, de acordo com a Constituição. “Contudo, parece altamente improvável que a Venezuela vai realizar eleições justas e livres depois que o regime consolidou seu poder criando uma Assembleia Constituinte para passar por cima da Assembleia Nacional controlada por maioria opositora. A despeito do declínio na produção de petróleo, o governo pode evitar uma situação de calote este ano graças ao apoio vindo da China e da Rússia.”

Ativistas pró-governo na Venezuela. Dúvidas sobre eleições limpas em 2018. AFP PHOTO / FEDERICO PARRA

ARTIGO
Baseando seus argumentos em pesquisas de opinião que mostram que a maioria dos latino-americanos desejam estar numa economia de mercado e valorizam uma melhor proteção social e serviços públicos, o especialista em América Latina Michael Reid avalia na The Economist que, em muitos países do continente latino americano, os partidos sociais-democratas passaram para o lado da esquerda, enquanto os conservadores ainda defendem a idéia de um estado mínimo. “Os reformistas centristas, fortes na década de 1990, estão lutando”.

“Este Centro diminuído apresenta tecnocratas que não têm um toque popular (pense, por exemplo em Juan Manuel Santos da Colômbia ou Pedro Pablo Kuczynski do Peru) ou apresentações cujo pragmatismo ilimitado incentivou a corrupção (exemplo A: PMDB do Brasil). Em todo o caso, o centro está sendo vítima da desilusão dos eleitores com uma classe política que perdeu o idealismo concedido pelas transições democráticas da década de 1980 e que agora parece egoísta e distante.”

Malas de dinheiro apreendidas em apartamento do o ex-ministro Geddel Vieira Lima. PMDB: pragmatismo ilimitado incentivou a corrupção. AFP PHOTO / Divulgação Política Federal

No artigo, Reid defende que uma reaproximação ao centro, no entanto, seria um caminho melhor a ser seguido pela América Latina, no sentido de ser “uma ideologia liberal igualitária que vê a liberdade não apenas como a não-interferência do Estado, mas como a ausência de uma dominação opressiva, com oportunidade para que todos atinjam o seu potencial”. “Enquanto a esquerda enfatiza a redistribuição do estado”, diz Reid citando John Rawls, um filósofo e político americano, o referido Centro enfatizaria “o tratamento igual para todos os cidadãos contra a discriminação mais ou menos sutil e baseada na raça pelas quais as sociedades latino-americanas ainda sofrem”.

Mas para isso, os centristas latino-americanos deveriam se reinventar, assinala, lembrando da fonte de inspiração vinda da França, onde Emmanuel Macron formou um novo partido e quase que imediatamente ganhou a presidência contra extremistas da direita e da esquerda. Reid acredita que candidatos de centro ainda vão surgir no cenário brasileiro e ele cita Marina Silva como uma representante dessa linha de pensamento, que vem de uma ruptura com a esquerda do Partido dos Trabalhadores e “tem uma pauta que envolve ambientalismo, liberalismo e políticas limpas”.


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