publicidade
18
set

O que está em jogo nas eleições parlamentares da Alemanha neste final de semana

18 / set
Publicado por Leonardo Spinelli às 19:20

A direita nacionalista alemã intensificou, nesta segunda-feira (18), sua campanha contra a imigração e contra o Islã, coincidindo com seu avanço nas pesquisas de intenção de voto e, ao mesmo tempo, com o estancamento do partido da chanceler Angela Merkel, a seis dias das eleições legislativas no país. Apesar do avanço da direita, o mais provável é que Angela Merkel mantenha a sua coalização política, conforme avalia James McBride, analista do think tank americano Council On Foreign Relations. McBride já serviu no Senado americano e no gabinete de Obama como assessor de assuntos internacionais.

Para ele, o fortalecimento de partidos menores, como o AfD, vai atrapalhar a coalizão política de Merkel forçando-a a se aliar a alas mais radicais em seu país, mas não inviabilizará seu governo, que, em última análise, ganhou a confiança do eleitor alemão após as reviravoltas dos últimos meses na Europa, Estados Unidos e em outros países. Confira:

As eleições legislativas alemãs deste domingo (24) são observadas atentamente pela Europa que vem enfrentando um forte drama político nos últimos dezoito meses. As eleições determinarão a composição do Bundestag, a câmara baixa do parlamento do país, bem como o destino da chanceler Angela Merkel, que desde 2005 surgiu como uma das líderes mais influentes do mundo.

Merkel parece estar bem posicionada para continuar como chanceler (os últimos dados mostram preferência de 36% nas pesquisas, perto de seu mínimo histórico de 1998  de 35%, quando o social-democrata Gerhard Schröder ficou com a Chancelaria).

No entanto, uma série de partidos menores ganharam terreno devido à preocupação dos eleitores em relação à imigração e a questões de segurança, o que provavelmente irá fragmentar o Bundestag e tornar ao formatoda coalizão mais imprevisível. Como membro dominante da União Europeia, a Alemanha continuará a moldar a resposta do continente à crise da migração, às negociações do Brexit, à integração monetária e fiscal e à assertividade russa na periferia da Europa.

 

Quem são os principais candidatos?

Pesquisas de opinião mostram que o grupo de Merkel, a aliança de centro-direita da União Democrata Cristã e a União Social Cristã (CDU/CSU) tem uma liderança de quase 15 pontos sobre o Partido Social Democrata (SPD), uma sigla de centro-esquerda liderada pelo ex-presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz. Merkel governa a chamada grande coalizão com o SPD, que ficou em segundo lugar nas eleições legislativas  de 2013.

No entanto, as lideranças do SPD não quiseram se juntar à outra grande coalizão, argumentando que os partidos da esquerda deveriam se unir para impulsionar o crescente populismo de direita. Embora outra dessas coalizões seja uma possibilidade, essa tendência aumenta a probabilidade de Merkel ter de buscar uma aliança com partidos menores para atingir a maioria.

A crescente popularidade dos partidos minoritários, incluindo alguns das alas mais radicais, significa que vários partidos que atualmente não estão no Bundestag provavelmente conseguirão mais de 5% dos votos, o que lhes permitirá entrar no parlamento. Há quatro partidos que alcançam entre 5% a 10% dos votos, são eles:

  •  Die Linke (A esquerda) é um sucessor de extrema esquerda do partido comunista da Alemanha, que detém 64 assentos no Bundestag.
  • O Partido Verde é um partido ecologista de esquerda que detém 63 cadeiras.
  • O Partido Democrata Livre (FDP) é um partido pró-mercado liderado pelo carismático Christian Lindner. O FDP serviu como parceiro de coalizão de Merkel entre 2009 e 2013, mas não conseguiu ganhar nenhum assento nas eleições de 2013.
  • Alternativa para a Alemanha (AfD) é um partido populista de direita que está buscando entrar no parlamento pela primeira vez desde a sua fundação em 2013. O AfD baseou sua campanha em uma mensagem anti-imigração e anti-UE, mas sofreu divisões internas que fizeram com que seu líder mais visível, Frauke Petry, se retirasse das eleições de 2017.

 

Que tipo de coalizão é a mais provável?

Merkel descartou alianças com o AfD ou Die Linke, levando muitos observadores a concluir que a coalizão mais provável envolveria a CDU / CSU, o FDP de Lindner e, dependendo do total da votação, os Verdes também. No caso em que Schulz tenha a oportunidade de formar um governo, analistas dizem que ele provavelmente procurará uma coalizão de esquerda com Die Linke e os Verdes, ao invés de outra grande coalizão com Merkel.

O que está em jogo para o resto da Europa?

Nos últimos dois anos, o voto pelo Brexit no Reino Unido, a força eleitoral da Frente Nacional de direita na França e o aumento dos movimentos radicais e eurocéticos em toda a Europa sinalizaram para o crescente descontentamento dos eleitores com a política de migração europeia e o ritmo de integração da UE. Ao mesmo tempo, alguns especialistas dizem que esse tumulto político retardou a crescente maré populista.

Os decisores políticos em Berlim estiveram no centro desses debates controversos sobre o futuro da Europa. Dado o papel da Alemanha na imigração na União Europeia e o mandato frequentemente polêmico de Merkel, o resultado das eleições poderia ter sérias ramificações em todo o continente:
A política de migração e de fronteira tem sido uma das questões mais definidoras de Merkel, desde que o influxo maciço de requerentes de asilo da Síria e de outros países começou em 2015.

A decisão de Merkel de abrir a Alemanha para mais de um milhão de migrantes contribuiu para a ascensão do AfD, que exige que o país feche suas fronteiras, além de criticar o tratado sem fronteiras de Schengen na União Europeia. Mas os analistas dizem que o acordo de Merkel em 2016 com a Turquia, para diminuir o fluxo de migrantes, reduziu a temperatura do problema entre os eleitores alemães. Os outros partidos fora o AfD, em geral, aprovam a política de portas abertas da Alemanha, mas têm abordagens diferentes sobre como encorajar outros estados da UE a dividir uma maior parcela de migrantes e refugiados.

Ciclista passa em frente a cartazes da chanceler alemã Angela Merkel (CDU) e de seu principal rival nas eleições deste domingo Martin Schulz numa das ruas de Berlim. Foto: Odd ANDERSEN / AFP

Um assunto relacionado à crise migratória é a política de defesa europeia. Merkel tentou alinhavar uma maior cooperação de defesa na UE, algo que o Reino Unido, em particular, havia questionado antes de sua decisão de deixar o bloco. O SPD e o FDP querem ir ainda mais longe, em direção a um exército único da UE. Enquanto Merkel prometeu aumentar os gastos militares aos níveis exigidos pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), essa posição foi fortemente criticada por Schulz, bem como pelos anti-militaristas Verdes e Die Linke.

O futuro da integração da UE dividiu os partidos políticos da Alemanha. Todos, exceto o AfD, são pró-UE, mas diferem no ritmo e na profundidade da integração. Enquanto o Schulz, do SPD, apoia uma mudança ambiciosa para uma maior integração, incluindo a criação de um ministro das Finanças europeu e a emissão de “Eurobonds” continentais, os conservadores de Merkel querem mudanças mais graduais. Enquanto isso, o líder da FDP, Lindner, é mais cético em relação à integração da UE, e propôs dar alívio da dívida da Grécia em crise – uma posição altamente controversa entre os eleitores alemães – em vez de uma saída grega da área monetária comum do euro.

Ambos, Merkel e Schulz concordaram que as negociações de adesão à UE com a Turquia deveriam ser encerradas na sequência de um agravamento da situação dos direitos humanos naquele país, embora Merkel tenha amenizar nas críticas ao presidente turco Recep Tayyip Erdogan pela necessidade de manter o apoio da Turquia ao seu acordo migratório na Alemanha.

Os principais partidos alemães estão de olho nas negociações do Brexit com o Reino Unido e defendem que Londres não deveria ficar com a “cereja do bolo” em relação aos aspectos da União Européia que deseja manter. (Alguns no AfD afirmam que voto pelo Brexit foi um golpe para a UE, embora o partido diga que não quer, necessariamente, que a Alemanha abandone o bloco. Em vez disso, rejeita a integração, que vê como prejudicial à soberania alemã, além de se opor ao euro.)

 

Como o resultado poderia influenciar o resto da política externa da Alemanha?

Merkel retirou fogo de seus adversários em relação a várias outras áreas da política externa. Uma delas é a política da Rússia, na qual a linha dura de Merkel contra a anexação da Crimeia pelo presidente Vladimir Putin e a intervenção militar em Donbass reforçaram uma frente europeia unida contra a Rússia.

Enquanto Merkel comparou a anexação da Crimeia com a divisão da Guerra Fria na Alemanha, o SPD quer melhores relações com Moscou e apoia o levantamento de algumas sanções contra a Rússia. Lindner, da FDP, disse que aceitaria a anexação como parte de uma solução a longo prazo para o conflito ucraniano.

Tanto o Die Linke quanto o AfD se opõem à posição de Merkel sobre a Rússia, por diferentes motivos. O Die Linke, com base em raízes anti-americanas e anti-Otan, apoia uma aliança com a Rússia. O AfD vê uma boa relação com Putin como fundamental no sentido de restringir a migração do Oriente Médio e Ásia Central.

Schulz também procurou minar a popularidade de Merkel, relacionando-a ao presidente dos Estados Unidos, Donald J. Trump, recebido por ela em uma reunião de julho do Grupo dos 20 países em Hamburgo. O relacionamento de Merkel com o presidente dos Estados Unidos tem sido duro, especialmente depois que ela disse, em maio, que a Alemanha não podia mais confiar em seus aliados tradicionais – uma declaração amplamente aceita como direcionada aos Estados Unidos – e criticou fortemente a decisão de Trump de se retirar do Acordo de Paris sobre o clima.

Schulz diz que ele enfrentaria Trump com mais força, classificou-o como “homem irresponsável” e tudo isso levou os analistas a concluirem que uma chancelaria de Schulz provavelmente significaria uma nova relação entre os EUA e a Alemanha.

Enquanto isso, alguns especialistas dizem que a volatilidade política internacional do ano passado – passando pelo Brexit, pelas eleições de Trump e também pela crise com a Coreia do Norte – reforçou o apelo de que Merkel tem uma mão firme, enfraquecendo o apetite dos eleitores alemães pelos populistas de direita e de esquerda.


Veja também