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set

Nos 100 anos da revolução russa, livro conta a influência negativa do stalinismo no Partidão

24 / set
Publicado por Leonardo Spinelli às 9:30

Guedes faz a diferenciação do PCB, que preferiu se submeter às ordens vindas da Rússia, de outros partidos comunistas, como o chileno. Foto: Filipe Jordão / JC Imagem

Há 100 anos o mundo tremeu diante da revolução comunista liderada por  Lenin, que apeou a dinastia Romanov do poder na Rússia, colocando no mesmo ano o Partido Bolchevique no lugar. O que se sucedeu ali inspirou outros revolucionários insatisfeitos com o status quo em outros países e gerou desdobramentos nos quatro cantos do mundo, como o maoismo na Ásia e o castrismo e o foquismo (de Che Guevara) na América Latina e África.

No Brasil, a revolução russa inspirou a criação do Partido Comunista do Brasil (PCB), mas a ascensão de Joseph Stalin ao comando da União Soviética, com a morte de Lenin, teve influência negativa na história do chamado Partidão. “A política do PCB foi extremamente danosa ao País e para os grupos que a legenda queria representar”, analisa o professor do departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Marcos Guedes.

A política do PCB foi extremamente danosa ao País e para os grupos que a legenda queria representar”

Professor do departamento de Ciência Política da UFPE Marcos Guedes.

“Ao contrario de outros partidos socialistas, o ciclo brasileiro é extremamente stalinista, submisso à política determinada por Stalin e depois pela União Soviética. Esses princípios envolviam estrutura burocrática autoritária. Eles não queriam pessoas críticas no partido. Seu primeiro critério era o da obediência. A esse modelo (partidário) autoritário soviético eu chamo de stalinismo”, explica o professor.

A tese faz parte de seu livro Comunismo e Stalinismo no Brasil, lançado pelo professor pela Editora Prismas. Guedes faz a diferenciação do PCB, que preferiu se submeter às ordens vindas da Rússia, de outros partidos comunistas, como o chileno, que se afastou dos dogmas soviéticos.

“O (PC do) Chile se aliou à social democracia e eles fizeram parte do o regime democrático por tempos. No Brasil, tivemos a insurreição de (Luiz Carlos) Prestes (que foi a intentona comunista de 1935, através da Aliança Nacional Libertadora, ALN). O levante fracassou porque foi coisa externa e não teve organização no Brasil. Isso deu força à (Getúlio) Vargas, que era outro autoritário, para destruir a Constituição de 1933 de perfil liberal. Com isso, nos movemos na direção da ditadura fascista do Estado Novo de 1937”, explica.

Num trabalho de pesquisa minucioso, a obra de Guedes mostra como funcionou a influência Russa na história do PCB. Separa as visões nacionalistas de que o partido foi produto inicial do tenentismo que gerou Prestes ­ – e o próprio Vargas do outro lado – fruto da influência ideológica “pequena-burguesa”, da visão internacional,na qual as decisões do partidos vinham de fora, a partir da conjuntura internacional.

O livro é fruto da tese de doutorado defendida na Universidade de Essex. “Pesquisei centenas de documentos fora do Brasil. Procurei fugir dos depoimentos de pessoas que viveram aquela época e que em muitos casos ignoravam o que se passava acima delas. O livro é uma versão, não é a tese. Tentei fazê-lo para a geração mais jovem que quer entender o assunto. Acho que ele dialoga com a situação atual”, avalia.

Seu objetivo é mostrar como e porque os comunistas brasileiros não conseguiram realizar o sonho de construir um modelo original fora do patriotismo brasileiro e do chamado imperialismo externo, repassando a história desde a fundação do PCB, Estado Novo, o período democrático, o golpe de 64 e o período de clandestinidade do partido, até chegar à redemocratização e a volta do PCB como ator político nacional e sua influência nos outros partidos de esquerda. “O fim da União Soviética marca o fim do comunismo e do PCB, o que reforça a visão de que o partido vivia a partir de Moscou.”

Para ele, a história do PCB serve para refletir sobre a atual crise política e de legitimidade que o Brasil vive atualmente. “Só tem uma saída para isso, que é o aprimoramento do regime democrático. E esse aprimoramento passa pela necessidade de se acabar com a leitura patrimonialista. Não um estado para atender interesses privado, mas um estado com maior poder fiscal e de distribuição mais forte, um perfil republicano que atenda às demandas da população.”

O livro Comunismo e Stalinismo no Brasil pode ser pedido em qualquer livraria no Brasil ou adquirido no site da Editora Prismas por R$ 55. Durante esta semana, Marcos Guedes lançará sua obra no Carpe Diem em Brasília e na Unesp de Marília (SP) e no seminário sobre os 100 anos da revolução russa na USP.

 


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