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Crítica: Blow-Up – Depois Daquele Beijo, de Michelangelo Antonioni

09 / fev
Publicado por Ernesto Barros às 6:00

blowup
Vanessa Redgrave e David Hemming dividem uma cena de Blow-Up. Foto: Zeta Filmes.

Embora tenha estreado em Nova York no final de 1966 – no Brasil, no dia 24 fevereiro de 1967 –, Blow-Up – Depois Daquele Beijo (até hoje ninguém entendeu esse subtítulo brasileiro!) entrou para a história do cinema no mês de maio, ao ganhar a Palma de Ouro do Festival de Cannes. Desde o ano passado que a obra-prima do italiano Michelangelo Antonioni, agora restaurada e ainda mais brilhante em versão digital, comemora seus 50 anos de existência. A partir de hoje, Blow-Up ganha as telas do Cinema da Fundação/Museu para mais uma revisão histórica.

Em 1967, o Festival de Cannes já respirava os eflúvios de 1968, quando a 21ª edição do festival seria cancelada por motivos políticos e protestos contra o afastamento de Henri Langlois da Cinemateca Francesa. Alguns concorrentes de Blow-Up já apontavam o quanto o mundo estava em ebulição. Um dos grandes representantes da Competição Oficial, que venceu o Prêmio da Crítica Internacional Fipresci, foi o revolucionário Terra em Transe, do brasileiro Glauber Rocha.

Ao contrário de Glauber, que vinha de um país de terceiro mundo dominado por uma ditadura militar, Michelangelo Antonioni estava com os olhos voltados para uma nova fase de sua carreira, ligada ao que ele vislumbrava que iria acontecer na Europa. Desde Deserto Vermelho, realizado em 1964, que o “poeta da incomunicabilidade” já vislumbrava uma nova realidade mundial, em que a juventude, seus modos de expressão, e a arte teriam um papel sem igual. Blow-Up, como se sabe, é um filme que captura, em imagens esplêndidas e abertas a interpretações, o zeitgeist da Inglaterra do final dos anos 1960 – a Swinging London da moda, das modelos, do rock’n’roll e da psicodelia.

Com base numa história curta do argentino Júlio Cortázar, Antonioni e Tonino Guerra, seu roteirista, constroem um personagem incrível: o fotógrafo londrino Thomas (o papel da vida de David Hemmings) surge contaminado por um profundo mal estar, ao trabalhar feito louco em coisas que, aparentemente, ele não dá a mínima importância. Pelo menos é o que vemos no tratamento que ele dispensa às modelos e aos editorias de moda.

A primeira sequência genial de Blow-Up é a sessão de fotos com a modelo Veruschka, quando a máquina de Thomas adquire conotações fálicas. A cada momento mais instável – o filme se passa durante um dia –, ele será atropelado pelo acaso, quando fotografa um casal anônimo em um parque. Jane (Vanessa Redgrave, lindíssima) ainda tenta reaver o rolo de filme, mas é ludibriada por ele. Ao revelar o filme, Thomas vai ampliar a foto dezenas de vezes, até perceber um corpo entre os arbustos do parque.

Esta sequência e outra ainda mais radical, aquela em que um casal joga tênis sem bolas, fizeram de Blow-Up um filme que desafia a plateia há 50 anos. A cada revisão, o público é levado a pensar e desconfiar das aparências do mundo e de sua reprodução imagética. Grande influência do cinema moderno, o filme foi homenageado por Brian De Palma em Um Tiro na Noite (Blow Out), em 1981. Blow-Up ainda é filme para se vê com os olhos muito abertos.


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