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Crítica: O Que Está por Vir, de Mia Hansen-Love

08 / mar
Publicado por Ernesto Barros às 6:00

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Isabelle Huppert em cena de O Que Está por Vir, de Mia Hansen-Love. Foto: Zeta Filmes

O Cinema da Fundação/Museu preparou uma programação especial para a Semana da Mulher. A partir desta quinta-feira (9/3), dois longas-metragens inéditos e a reestreia de um clássico incontestável trazem ricos perfis femininos, com visões partilhadas por diretoras e diretores. Uma das estreias é a produção franco-alemã O Que Está por Vir, de Mia Hansen-Love, que venceu o Urso de Prata (Melhor Direção) no Festival de Berlim do ano passado.

O filme tem como esteio mais uma atuação preciosa de Isabelle Huppert, uma das mais completas atrizes da história do cinema francês. No mesmo ano em que Isabelle deu vida à insensível personagem de Elle, de Paul Verhoeven, ela criou a professora de filosofia Nathalie, que dá uma reengatada na vida depois de várias perdas, como a traição do marido, a morte de um ente querido e a constatação de que um brilhante ex-aluno escolheu um caminho um tanto inesperado para seguir.

Todas esses elementos, trabalhados em muitos outros filmes, poderiam resultar em certo déjà vu. Mas a principal surpresa de O Que Está por Vir é que Mia Hansen-Love, no seu quinto longa-metragem, tem voz própria e consegue reunir estes temas com delicadeza, sensibilidade e um refrescante vigor narrativo. Enfrentar esses baques sem esconder a dor e seguir em frente com naturalidade parece algo simples, mas nem sempre essa representação feminina ganha corpo no cinema. Quase sempre, relatos desse tipo tendem a mostrar a mulher a um passo de um ataque de nervos, entregue ao ciúme e a depressão.

Numa curta cena, quase um piscar de olhos, Nathalie está dentro de um ônibus e vê o marido e a nova mulher passarem ao seu lado. É claro que ela vai chorar, mas em menos de um minuto ela também vai rir. Nesse espaço tão curto entre o choro e riso, Nathalie mostra para o espectador que a vida dela não vai parar por isso. Ao contrário, a professora reencontra ali a liberdade e possibilidade de se reinventar.

Desde a primeira aula que ela dá num liceu de Paris, durante uma manifestação estudantil, Nathalie mostra que ajudar a formar às mentes dos alunos, para que eles se transformarem em seres pensantes, é a motivação principal de seu dia a dia. O aluno Fabien (Fabien Roman Kolinka), de quem ela é mentora, escolhe um caminho bem de acordo com o momento político atual da França, e do resto do mundo, que se assemelha ao da juventude dela, mas que não condiz com o que ela pensa agora.
Como os militantes de maio de 1968, Fabien faz parte de um grupo anarquista e vive numa comunidade. Como filósofa, Nathalie percebe que a história não dá passos para trás – muito menos a vida.


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