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Festival de Cannes 2017: Entrevista – Kleber Mendonça Filho

21 / maio
Publicado por Ernesto Barros às 5:22

Kleber Mendonça Filho. Foto: © Bertrand Noël_V2

CANNES – Apresentado no Festival de Cannes do ano passado, Aquarius não ganhou prêmios, mas conquistou o mundo. Com o seu segundo longa-metragem, o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho também aumentou seu reconhecimento, como o convite para ser o presidente da Semana da Crítica, a mostra que revela as novas caras do cinema mundial. Nessa entrevista, Kleber fala de sua função no Festival de Cannes, de Bacurau, seu novo longa-metragem, e da nova safra do cinema brasileiro.

JORNAL DO COMMERCIO – Você já acumula experiência como crítico de cinema e cineasta aqui em Cannes e agora preside o júri da Semana da Crítica, uma mostra que responde à sua atividade de realizador, pois quem concorre está no primeiro ou no segundo filme. Qual a análise que você faz de sua participação, já que os cineastas estão no mesmo nível de sua atuação no cinema?

KLEBER MENDONÇA FILHO – Para mim é um privilégio está aqui. A Semana da Crítica é uma das instituições do Festival de Cannes e um espaço de descoberta. Se você olhar para a história da Semana da Crítica, vai saber que ela descobriu os primeiros filmes de Ken Loach, um cineasta que já tem duas Palmas de Ouro, Bernardo Bertolucci e uma série de nomes que fazem parte do cinema. Ontem (quarta-feira), fui ver a abertura da Semana da Crítica, com o filme italiano Sicilian Ghost Story, e um dos realizadores falou uma coisa muito bonita. Eles receberam um convite, mas não era só um convite, era uma carta. Há pouco tempo, eu revelei que Aquarius também recebeu uma carta da Semana da Crítica, eles queriam o filme lá, no ano passado. Claro, Aquarius foi para a Seleção Oficial. Eu tenho essa carta, não é um convite burocrático, tipo “informamos que seu filme foi selecionado”, não é isso. É uma carta de amor à cinefilia, de duas ou três páginas. Isso é muito especial, porque o cinema – se você não tomar cuidado – se torna mecanizado pelos processos. Acho que a cinefilia, o amor ao cinema, se expressa de maneira muito forte num festival como Cannes e numa mostra com a da Semana da Crítica. É uma honra e uma alegria está aqui conhecendo gente, vendo filmes e, dessa vez, participando do festival participando de uma nova maneira, que eu ainda não conhecia. Eu vinha como crítico, que sempre achei maravilhoso, vim como realizador, no ano passado, que também achei maravilhoso, e estou como júri agora.

JC – Você já foi júri em outros festivais, mas como é presidir…

KLEBER – Eu não sei, queria perguntar também… Eles parecem achar que eu sei, mas eu não sei. Olho para os meus colegas e para mim, sei que existe o nome, mas é a mesma coisa. A gente conversa e discute os filmes, dizemos o que sentimos, o que achamos. Parece que a coisa pega se tiver algum tipo de discussão apaixonada, mas eu espero que isso não aconteça.

JC – Além da Semana da Crítica, você também vai acompanhar os filmes das outras mostras…

KLEBER – Sim, hoje (sexta-feira, 19/5) a gente vai correndo para a Quinzena dos Realizadores e, mais à noite, vamos ver o filme da competição, na sessão oficial, o filme húngaro. Você sabe, em Cannes temos muitas coisas para fazer.

JC – Bacurau, seu novo longa-metragem, foi capa da Variety, e será produzido pelo mesmo trio de Aquarius, Emilie Lesclaux, Saïd Ben Saïd e Michel Merkt. Mas, diferente de Aquarius, já está em pré-venda no Mercado de Cannes. O que você espera dessa ação?

KLEBER –  É uma prática muito comum: você apresenta um projeto a possíveis investidores que, por conhecerem sua trajetória, o trabalho que vem sendo feito, poderiam apostar na nova ideia. Nos festivais em que tem mercado, há sempre uma prévia do que deve ser filmado.

JC – A princípio, o que eles estão vendo? A sinopse, as locações…

KLEBER – Essa, na verdade, é a parte mais difícil para mim. É que um filme tem muitas coisas antes de passar a acontecer. Na época de Aquarius, eu era muito calado com relação a isso. Eles me pediam: “Fale do filme”! Eu não sei muito bem o que falar do filme. Para mim, é mais fácil falar uma vez que ele existe. É como você querer algo que ele seja, mas ainda não tem certeza se ele será exatamente como está dizendo que vai ser. Mas eu gostei do pôster que eles fizeram – fizemos em comum acordo, claro – porque tem elementos de gênero, têm crepúsculo, um disco voador (risos de Kleber). Eu achei interessante a arte e vamos trabalhar com ela. E espero que ao longo do próximo ano esse filme se materialize, que eu consiga tocar nele.

JC – Quando você estava no início da produção de Aquarius, disse que ele era um filme de ficção científica, que havia uma mulher que viajava no tempo…

KLEBER – Eu não acho que é totalmente falso, na verdade.

JC – Mas agora nós estamos vendo que Bacurau é um filme de ficção científica, tem até um disco voador. Mas você também disse que era um western também.

KLEBER – Eu acho que é um western. E é um filme de ficção científica. Mas em relação a Aquarius em nunca achei que estava mentindo, Clara realmente viajava no tempo. Não no sentido de entrar num casulo e ter uma explosão, um raio, e ela está em 1814. Não é isso. Mas acho que ele é muito sobre deslocamentos pessoais na vida de uma pessoa. Trabalhando com Juliano Dornelles, temos a certeza de que, quando se parte para fazer um filme, você tem que se sentir aconchegado no tipo de cinema que fez você querer fazer filmes. Bacurau é um tipo de filme que vem de filmes que nos fizeram quere fazer filmes – filmes de aventura, de ficção cientifica, de western, tudo isso numa paisagem muito brasileira, no Sertão. É uma paisagem totalmente reconhecível, mais ao mesmo tempo um estilo de cinema que não tem sido abordado no Brasil.

JC – No material de divulgação da SBS, eles citam os filmes O Confronto Final (Southern Comfort), de Walter Hill, e Amargo Pesadelo (Deliverance), de John Boorman, como inspiração para Bacurau. Você confirma?

KLEBER – Eu nunca falei desses filmes, mas é interessante que tenha vindo deles. Eu acho até muito bacana quando eles falaram isso. Mas a primeira reação que eu tive é tipo aquela que, quando você exibe um filme num festival, as pessoas começam a falar coisas que ainda não tinha se dado conta e você concorda?  Acho que isso é a primeira vez que isso aconteceu com Bacurau, antes mesmo de ele ser filmado, apenas com base no roteiro. E eu estou muito feliz com o roteiro, acho que é bom.

JC – Em que processo Bacurau está agora?

KLEBER –  Estamos procurando o elenco, a pré-produção ainda não começou. Pode-se dizer que sim, por causa do elenco, mas o processo em si ainda não começou. O cineasta Marcelo Caetano está viajando para cinco ou seis cidades do Nordeste procurando por um elenco muito específico, que vai de crianças a idosos de 90/95 anos de idade, de todos os gêneros e sexos. É um trabalho que ele fez em Aquarius muito bem e que a gente gostou. Ele é cineasta e está com um filme excelente chamado Corpo Elétrico para estrear. Ele está procurando essas pessoas e estou gostando dos vídeos que ele manda dos possíveis personagens de Bacurau.

JC – Este ano temos três filmes brasileiros em Cannes, um número menor que em 2016…

KLEBER – Nós temos o filme de Fellipe Barbosa (Gabriel e a Montanha) na Semana da Crítica, um curta de Gabriel Martins na Quinzena dos Realizadores (Nada) e outro na Cinéfondation (Vazio do Lado de Fora, de Eduardo Brandão Pinto, da UFF). Não é nada mal. Acho que a presença do cinema brasileiro está – comparado com o que era há 10 anos – cada vez mais forte. Foram 12 filmes no Festival de Berlim, com Joaquim na competição. Boi Neon teve uma carreira incrível, Aquarius também teve uma carreira incrível. Com as políticas públicas e essa geração nova chegando, o cinema brasileiro aumentou o vocabulário e o alcance. Isso é muito bom. Este ano em Cannes não está mal, com três filmes nas mostras, sem falar no que eles vão fazer no resto do mundo. Além disso, a presença brasileira é enorme, você esbarra com gente com projetos que serão feitos daqui a dois ou três anos.


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