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Crítica: O Futuro Perfeito, de Nele Wohlatz

27 / jul
Publicado por Ernesto Barros às 6:00

Xiaobin Zhang e Saroj Kumar Malik, numa cena de O Futuro Perfeito. Foto: Zeta Filmes/Divulgação

Com pouco mais de uma hora de duração e deliciosamente rico em conceito e realização, o filme argentino O Futuro Perfeito, em cartaz a partir de hoje no Cinema da Fundação/Museu, em Casa Forte, é uma verdadeira pérola. Seu surpreendente resultado, apesar da aparente despretensão, é um caso especial. Para defini-lo, um tanto metaforicamente, poderíamos dizer que O Futuro Perfeito é como aqueles perfumes raros que são encontrados nos menores frascos.

Dirigido pela alemã Nele Wohlatz, radicada na Argentina depois de ter estudado cinema em Buenos Aires, este primeiro longa-metragem ganhou uma série de prêmios muito cobiçados, principalmente em festivais abertos para o que se faz de mais novo no cinema, como o Festival de Locarno (Prêmio de Primeiro Filme) e o AFI Fest (Grande Prêmio do Júri da Mostra Novos Autores), ambos no ano passado.

Como os filmes mais inteligentes, O Futuro Perfeito é sobre vida e linguagem. Nesse caso, uma via de mão dupla tecida com material rico e sutil. A personagem principal é Xiaobin Zhang, uma adolescente chinesa que vai para Buenos Aires encontrar os pais, que foram para o país muito tempo antes dela. Sem falar uma palavra de espanhol, ela está, fatalmente, condenada à difícil vida de imigrante, ou seja, manter-se isolada e alheia a tudo que a cerca.

Muito além de fazer um filme quadrado, de pura observação sobre personagens reais, tão comum no cinema atual, Nele Wohlatz mostra que Xiaobin empreende uma odisseia quando resolve tomar aulas de espanhol. Chamada de Beatriz, por causa de um personagem do caderno de espanhol básico, ela parece conquistar uma nova vida quanto entende noções da língua em relação à estrutura gramatical. Quando começa a entender o futuro perfeito (pretérito do futuro), vai brincar com a noção de que sua vida pode ser outra.

Por exemplo, ela inventa mil possibilidades de futuro para aceitar ou não o casamento com o indiano Vijay (Saroj Kumar Malik), um programador de computação, um pouco mais velho do que ela, que a corteja e teima em pedi-la em casamento. Mais adiante, Xiaobin/Beatriz coloca os pais, que não aceitam a vontade dela em se inserir na cultura do seu novo país, numa situação policial, tendo Vijay também como participante.

Durante as lições de espanhol, ela aprende que tem um lugar no mundo e que está no comando de sua vida. O fino humor que Nele Wohlatz extrai das cenas, muitas vezes esquetes de aulas, é pura poesia do cotidiano. Já passando dos 120 anos, o cinema não para de surpreender com filmes simples e inteligentes quanto este.


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