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Crítica: Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson

22 / fev
Publicado por Ernesto Barros às 15:28

Vicky Krieps e Daniel Day-Lewis em Trama Fantasma:. Foto: Universal Pictues/Focus Features.

Há pelo menos uma década e meia que o cineasta americano Paul Thomas Anderson, 48 anos – PTA, para uma grande facção de admiradores – deixou de lado a cena da vida contemporânea para lançar seu olhar mediúnico para o passado. Sangue Negro (2007), O Mestre (2012), Vício Inerente (2014) e Trama Fantasma (2017), seu último longa-metragem, que estreia nesta quinta-feira (22/2), são suntuosas reconstituições temporais – o que significava dizer que seus filmes não parecem mumificações históricas.

Trama Fantasma chega aos cinemas embalado com seis indicações ao Oscar – entre elas a de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Ator (Daniel Day-Lewis, que já ganhou três vezes e disse que está abandonando o cinema depois desse filme). Um desses Oscars foi por Sangue Negro, seu primeiro encontro com Paul Thomas Anderson, quando interpretou um ambicioso homem de negócios do ramo petrolífero nos Estados Unidos da virada do século 20.

Praticamente, essa vontade de olhar para o passado já ultrapassa a metade da sua filmografia, porque além desses, a obra-prima Boogie Nights: Prazer Sem Limites, de 1997, é um dos melhores filmes históricos sobre a década de 1970 nos Estados Unidos, principalmente a Los Angeles dos primeiros anos da era em que o cinema pornográfico transformou vidas e a própria sociedade americana.

Embora O Mestre já se passasse, em parte, na Europa da Segunda Mundial, em Trama Macabra o diretor vai para a Inglaterra da década de 1950 para revelar mais um personagem masculino de grande complexidade, o costureiro Reynolds Woodcock (Day-Lewis), que leva uma existência fastidiosa numa mansão londrina desenhando vestidos para os nobres e abusando das jovens mulheres que, depois de acabada a paixão, se tornam invisíveis e são enxotadas pela irmã, a implacável Cyril (Lesley Manville).

Mas tem sempre um dia em que um velho lobo encontra a presa que não vai cair na sua armadilha. Durante um passeio pelo interior, Reynolds encontra a jovem garçonete Alma (Vicky Krieps, nascida no Luxemburgo, vista recentemente O Jovem Karl Marx), uma camponesa em quem ele põe os olhos e elege como modelo, empregada, amante e esposa. Mas, ao contrário do que o poderoso costureiro imagina, já não será ele quem irá dominar essa relação, como aconteceu sempre em sua vida.

Obsessivo, dominador e “amaldiçoado”, como acredita, Reynolds é mais um dos personagens inesquecíveis de Paul Thomas Anderson. Assim como o fuzileiro naval Freddie Quell (Joaquim Phoenix), de O Mestre, o estilista de Trama Macabra não é um personagem que o espectador irá se apaixonar. Em quase todos os seus filmes, PTA consegue eliminar as identificações para cavar fundo a psique de suas criaturas. Mais uma vez, Day-Lewis apresenta uma rica gama de contradições, que fazem de Reynolds Woodcock um figura de carne viva.

Quem conhece qualquer dos oito filmes de Paul Thomas Anderson sabe que ele não é um cineasta simplório. Trama Fantasma é um dos seus trabalhos mais ambiciosos. A recriação desse universo povoado pela realeza, estrelas de cinema e donos do poder, é de um requinte magistral.

Em alguns momentos, o filme parece um objeto cinematográfico não-identificado, com seu pendor para a música de câmara, o que dá ao filme um aspecto operístico e teatral para Reynolds e Alma travarem uma luta de vida e morte em cada deverá entender sua específica forma de amar. Sim, Trama Fantasma é um filme sobre a paixão, loucura, moda, luxo, perfeição.
Correndo por fora do cinema de mercado, Paul Thomas Anderson não arreda pé de sua originalidade. É verdade que seus filmes podem até serem frios, mas, em contrapartida, são monumentos estéticas de acabamentos primorosos.

Nos últimos anos, enquanto o cinema se transforma em digital, ele batalha para filmar em película e exibir seus filmes em 70mm. A pureza dessa visão está presente nos seus filmes, que não se assemelham a nada do que vê ordinariamente nos salas de cinema. Trama Fantasma, como Boogie Nights, Magnólia, Sangue Negro, O Mestre e Vício Inerente, é mais um triunfo na carreira de Paul Thomas Anderson.


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