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Crítica: Paulistas, de Daniel Nolasco

07 / mar
Publicado por Ernesto Barros às 23:31

Cena de Paulistas. Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

O documentário observacional pode ter seus desafios para o espectador que ficou acostumado ao modelo televiso ou clássico do cinema, quase sempre apoiados por uma voz que conduz a narrativa. Mas, com boa vontade e um pouco de paciência – e alguma aditivo para manter os olhos abertos, tipo um cafezinho bem legal – a experiência é das mais reveladores.

Paulistas, de Daniel Nolasco, certamente não é mais bem-sucedido dos documentários observacionais, mas seu método é bastante difundido e já virou uma espécie de dispositivo para mostrar uma dada realidade sem a necessidade de usar procedimentos por demais corriqueiros. Dito isto, vale apena se submeter ao seu ritmo e desvendar o mundo que ele está retratando.

Ao modo dos documentários que flertam com a ficção – ou que não se sabe onde começa um e termina o outro –, o filme vai, paulatinamente, somando personagens e detalhes sobre um agrupamento humano no interior de Goiás. A partir da presença de Samuel, Vinicius e Rafael, três irmãos de Daniel, o espectador vai percebendo os restos de um mundo que ficou para trás.

A partir da chegada de cada um deles à Paulistas, no Sul de Goiás, onde nasceram e foram criados, e que ainda é habitado pelos pais e parentes, o que transparece para o espectador é a preparação para um adeus definitivo. Embora o filme não se preocupe em entrar em detalhes, os irmãos vivem em outro lugar (Catalão) e só voltam para Paulistas quando estão de férias.

Lá, ainda tentam repetir os mesmos gestos do passado, como cuidar das últimas reses, atirar a esmo, matar algum animal para comer, fazer trilha de moto, cantar uma moda de viola quase esquecida e participar de uma festa. Cada uma dessas atividades parece que já teve sua importância algum dia. Agora, tudo ficou no passado, quando uma certa diversidade ainda era possível. Diante da monocultura (especialmente a soja) que tomou conta do Centro-Oeste brasileiro, só restou a tentativa de repetição.

O que mais fica evidente, a partir da montagem criteriosa de Daniel, é que os jovens não tiveram outra saída, senão ir embora. Talvez seja por isso que ele põe em perspectiva as coisas que eles fazem. Samuel, o primeiro a chegar, repete algo muito comum a quem criou gado um dia: demoradamente, ele ordenha uma vaca para tomar o leite ainda quente. Depois, Vinicius ajuda, com o auxílio de um maçarico, na limpeza da pele de um suíno, que depois será eviscerado.

Essas tarefas, que não mais parecem comuns, ganham um peso estranho em meio às transformações daquele lugar. A revelação do alvo onde todos atiravam, aparentemente a esmo, mostra que Daniel Nolasco tem consciência completa do que ela capta com sua câmera. Por sinal, o trabalho visual e sonoro de Paulistas é dos mais requintados. Com pouco ou quase nenhuma luz, ele extrai da lugar uma beleza que excede o abandono (das casas, principalmente).

Muito pouco filmado, o cerrado mostra-se como um lugar atrativo visualmente, na mesma tradição da caatinga nordestina. Realizado ao custo de R$ 50 mil e com a participação de jovens técnicos da região, Paulistas comprova a diversidade de olhares que marca o cinema brasileiro atual.


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