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Crítica: Encantados, de Tizuka Yamasaki

07 / mar
Publicado por Ernesto Barros às 5:02

Carol Oliveira e Thiago Martins em Encantados. Foto: RioFilme/Divulgação

Apesar de o cinema brasileiro ainda não ter encontrado uma maneira que garanta a exibição de sua produção cinematográfica nas salas de exibição – muitos filmes vão direto para o streaming ou para os canais de TV –, não há como não perceber que a diversidade de títulos cobre todas as regiões do País. Melhor do que isso: hoje estamos conhecendo melhor o Brasil, em sua geografia física e humana, como nunca havia acontecido antes.

A partir desta quinta-feira (8/3), no Cinema da Fundação/Museu, em Casa Forte, o espectador recifense terá a chance de fazer uma pequena viagem para o Norte e o Centro-Oeste brasileiros, duas regiões cuja grandiosidade permanecem intocadas pelos nossos cineastas, sejam eles locais ou não.

A cineasta Tizuka Yamasaki, que sempre mostrou interesse em conhecer o Brasil, finalmente apresenta o esperado Encantados, filmado na Ilha do Marajó, no Pará, um projeto que lhe tomou mais de 10 anos sua vida. Em Paulistas, o goiano Daniel Nolasco mostra, por meio da história dele – e também dos irmãos, dos pais e de parentes –, como o lugar onde nasceram e foram criados, no Sul de Goiás, está em vias de desaparecimento.

Dona de uma filmografia em que as mulheres estão sempre em primeiro plano, lutando com dignidade pelos seus princípios, em Encantados Tizuka elege outra personagem real para construir mais uma saga pessoal. Desta vez, o nome dela é Zeneida Lima, uma pajé que vive na Ilha do Marajó, no Pará. O roteiro tem como base o livro O Mundo Místico dos Caruanas da Ilha do Marajó, lançado em 1992, no qual conta sua história desde a infância, quando foi escolhida pelas forças da natureza para ser pagé. Tizuka e o roteirista Victor Navas fizeram um recorte da vida de Zeneida justamente durante a adolescência: ao chegar à Ilha, vinda de Belém com a família, ela começa a ver seres misteriosos que habitam o Rio Amazonas, até que desaparece por 17 dias.

“No livro, Zeneida fala em seres azuis altíssimos, com membranas, muito parecidos com os seres de Avatar, só que ela escreveu muito anos antes do filme. Mas a gente não tinha o dinheiro de uma produção de US$ 200 milhões para fazê-los. Por isso, fiquei preocupada em fazer um filme com efeitos digitais grosseiros por causa do nosso orçamento pequeno. Isso quebraria o encanto, assim resolvemos fazer os efeitos com muita sutileza”, contou Tizuka para uma plateia de professores e alunos convidados para uma sessão especial do filme no Recife, no último sábado.

O misto de realismo e encantamento é o principal elemento que Tizuka se ampara para conquistar os espectadores, especialmente a plateia que se identifica com os dilemas de Zeneida, incompreendida por quase todos que a cercam. O perfil rebelde de Zeneida (interpretada com garra por Carol Oliveira) permite que a personagem cresça, até a atingir a iluminação do seu destino. Ao estabelecer a força de Zeneida desde cedo, Tizuka também aposta na fantasia ao plasmar os seres encantados na pele de Antônio (Thiago Martins), um espírito marítimo que leva Zeneida às profundezas das águas.

Paralela à viagem mística da pagé, que aos poucos vai dando conta do seu destino, o filme acompanha também o conflito entre ela e a família, representado pelo pai ausente (José Mayer) e a mãe (Letícia Sabatella), ocupada demais em ter filhos atrás de filhos. Como protetores ela tem uma tia, Cotinha (Dira Pares), e um guia espiritual Mundico (Ângelo Antônio), que lhes ajudam em vários momentos de sua jornada.

A partir de um narrativa simples e cativante, salpicada por momentos de aventura e fantasia, que a região amazônica é pródiga em oferecer por causa da riqueza cultural dos povos indígenas, Tizuka faz de Encantados um filme que estabelece um diálogo fácil com o público. Não só pelo desenho dos personagens, longe de maniqueísmos, mas pela imersão sonora e visual pelos mitos da região. Ao escolher Zeneida como heroína, Tizuka abre os olhos do espectador como um chamado para a necessidade de respeito à natureza e a crença no que está fazendo.

“Quando você faz um filme de cunho espiritual, é preciso mergulhar fundo. Como diretora, mergulho até acreditar naquilo. Enquanto não acredito, não tenho armas nem instrumentos para seguir adiante. Minha função é criar uma história e fazer o espectador acreditar e se emocionar. Você se emociona quando acredita no que está vendo”, explicou a cineasta.

Até lançar Encantados nos cinemas, Tizuka enfrentou vários percalços. Nesse espaço de tempo dirigiu o longa Aparecida – O Milagre e outros produtos para a TV. A primeira exibição de Encantados foi na Mostra de S. Paulo, em 2014, mas problemas com um distribuidor atrasaram o lançamento. Agora, quase quatro anos depois, o filme teve o apoio da RioFilme, que está voltando, com a gestão de Marco Aurélio Marcondes, ao seu papel original de distribuidora, que teve uma importância muito grande durante a retomada, durante a presidência do crítico José Carlos Avellar. Espera-se que Encantados seja o primeiro de muitos filmes distribuídos pela RioFilme. Afinal, muitos filmes nacionais estão esperando sua vez nos cinemas.


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