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Crítica: A Noite Devorou o Mundo, de Dominique Rocher

21 / jun
Publicado por Ernesto Barros às 17:21

Cena de A Noite Devorou o Mundo. Foto: California Filmes/Divulgação

Um filme pode ser pequeno, mas possuir uma grande ideia. É isso o que o jovem cineasta francês Dominique Rocher conseguiu realizar com A Noite Devorou o Mundo, seu primeiro longa-metragem, um dos melhores filmes do Festival Varilux 2018.  Toda a ação de A Noite Devorou o Mundo se passa num prédio de Paris – de onde se vê a Torre Eiffel lá longe –, com um ator apenas em mais de dois terços de sua duração. A grande ideia é que Dominique Rocher pega carona na onda dos filmes de zumbis e faz algo que funciona do começo ao fim. Aliar a economia da feitura cinematográfica a um tema provocante, que parece não dar sinal de cansaço, é sinal de inteligência.

O cineasta americano George Romero, diretor do seminal A Noite dos Mortos-Vivos, que completa 50 anos em 2018, jamais imaginou que os zumbis se tornariam um símbolo do mal estar contemporâneo. Os mortos-vivos passaram do simbolismo inicialmente atribuído a eles, como um sinal apocalíptico, para um sentido ainda maior: expressar comportamentos coletivos da sociedade.

Com os parcos recursos que tinha em mão, o cineasta toma um caminho simples e eficiente. A trama consiste apenas na luta pela sobrevivência de Sam (Anders Danielsen Lie), um músico que vai pegar algumas fitas-cassete na casa da ex-namorada e acorda preso num pesadelo, quando vê que os zumbis tomaram conta de Paris. Vagando pelos cômodos de vários apartamentos, tentando manter a sanidade e à espera por algum tipo de sinal, Sam vai sentindo na pele e na mente a impossibilidade de sair daquele lugar.

Dominique Rocher, que também escreveu o argumento de O Último Suspiro, outro filme de gênero presente no Festival Varilux deste ano, explora ao máximo a solidão do personagem, que tem uma ótima atuação de Anders Danielsen Lie. Além dele, A Noite Devorou o Mundo tem a participação da atriz iraniana Golshifteh Farahani e de Denis Lavant, o ator fetiche de Leos Carax. Lavant, que quase não precisa usar maquiagem, garantiu mais uma interpretação incrível à sua galeria de tipos estranhos e maravilhosos. Além de trazer o terror da situação para o centro do seu filme, Rocher também lança um olhar de grande compaixão pelos mortos-vivos parisienses.


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