21
jun

Crítica: O Orgulho, de Yvan Attal

21 / jun
Publicado por Ernesto Barros às 17:27

Camélia Jordana e Daniel Auteil. Foto: Pandora Filmes/Divulgação

Desde os anos 1990 que o cinema francês abriu os olhos para a diversidade cultural e as diferenças sociais surgidas com a ascensão de sua população miscigenada, especialmente a de origem árabe/africana dos países da região do Magreb. A comédia O Orgulho, de Yvan Attal, não pretende fazer nenhum barulho sobre o tema, nem mesmo ser um tratado sociológico, mas sua simplicidade e bom humor tentam, ao menos, ajudar na compreensão e aceitação de diferenças num país que luta para aplainar suas questões de raça.

Para dar um estofo a esse mal-estar, marcado pela intolerância, o filme abre com entrevistas de arquivos de algumas personalidades que falam sobre o problema, como o filósofo Claude Lévi-Strauss, o escritor Romain Gary e os músicos Jacques Brel e Serge Gainsbourg (sogro do ator e diretor Yvan Attal, casado com a atriz Charlotte Gainsbourg). É verdade que muitos clichês sobre os bairros periféricos e algumas facilidades apresentadas ao longo da trama depõem contra o filme, mas isso também não deixa de ser positivo quando entendido menos pelas leis da realidade do que pelas licenças da fábula.

Afinal, os dois personagens de O Orgulho, uma estudante de direito de origem árabe e um professor de filosofia branco e cheio de tiradas racistas, parecem mais idealizações do que figuras decalcadas na realidade. Isso, certamente, permite que a discussão, ao sair do âmbito dos editorais e da TV, se transforme em algo menos carregado.

O confronto que o filme propõe surge quando o professor Pierre Mazard (Daniel Auteil), durante a primeira aula de uma nova turma, na Universidade Panthéon-Assas (Paris II), recebe a patadas a estudante Neïla Salah (Camélia Jordana), que chega atrasada. Com o biotipo de raça e vestida com roupas simples, a estudante é vitima da acidez do professor e de sua postura racista, que diz que ela não vai passar mais do que três meses no curso de direito. Ao mesmo tempo, os alunos gravam a cena, viralizada nos celulares e na internet, pondo em risco o cargo de Mazard, pois essa não é a primeira vez que ela apronta com os estudantes de origem estrangeira.

O que vem a seguir é uma tentativa da Universidade em fazer da estudante um símbolo de sua diversidade, fazendo com que o professor malvado prepare a aluna ferida para um famoso concurso de eloquência, o qual a instituição há muito não ganha. Embora toda essa preparação, que inicialmente explora as dificuldades de relação entre os dois, seja bastante previsível, aos poucos também vai se tornando charmosa pelos ensinamentos do professor.

A relação entre Mazard e Neïla é basicamente uma versão atualizada da mitologia do Pigmalião, na qual o professor ensina a estudante para ela se tornar um modelo de conduta, baseada na capacidade de argumentação e nas ideias de Schopenhauer, que serão usadas pela aluna em seus discursos contra outros estudantes de várias escolas do País. O humor rabugento do professor, brilhantemente interpretado por Daniel Auteil, rende boas risadas. Um romance entre Neïla e um colega de bairro e uma cena com a avó dela variam a narrativa levemente. Apesar de o final não causar surpresas, O Orgulho cumpre com o que pretendia. Além disso, coloca em primeiro plano uma mulher, sempre negligenciada em função de outras demandas políticas.


Veja também