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Crítica: Baronesa, de Juliana Antunes

26 / jun
Publicado por Ernesto Barros às 5:05

Leid e Andreia. Foto: Vitrine Filmes/Divulgação

Nenhuma cinematografia pode reivindicar a invenção do documentário híbrido. Ao tomar emprestada a transparência da narrativa ficcional, o método trouxe para o gênero um frescor surpreendente em filmes realizados em todos os cantos do mundo. Mas pode-se dizer, sem muitas possibilidades de erro, que o cinema brasileiro vem dando uma inestimável contribuição a esse novo realismo.

O longa-metragem Baronesa, de Juliana Antunes, em cartaz no Cinema São Luiz, é um exemplo notável do documentário híbrido. Quem quiser saber como o filme foi feito, e em que circunstâncias, não deve perder a sessão desta terça-feira (26/6), às 19h30, que vai contar com a presença da cineasta.

Uma das particularidades de Baronesa é que praticamente toda a equipe por trás dele é formada por mulheres, da direção à produção, da direção de fotografia à montagem. Mas, acima de tudo, é que as personagens do filme são duas mulheres negras, moradoras de uma favela de Belo Horizonte.

Juliana demonstra um completo domínio de seu objeto e extrai com vigor a força que empurra a manicure Andreia e a dona de casa Leid para frente, num lugar tão cheio de adversidade. Elas moram na favela Juliana, um enclave miserável, como tantos na periferia das grandes cidade brasileiras, em que o ar é cortado por tiros. Durante uma conversa entre elas, as amigas e a equipe de produção são aterrorizadas com uma saraivada de tiros.

Baronesa é a história dos sonhos, temores e das conversas entre Andreia e Leid. Com um irmão na cadeia, Andreia já não aguenta a violência da favela Juliana e guarda todo o dinheiro ganho arrancando cutículas e pintando unhas para levantar uma nova casa longe dali. Leid, com vários filhos para criar, espera a volta do marido, que também está na prisão.

Juliana Antunes, que morou na favela com suas entrevistadas, conseguiu momentos de muita intimidade, sororidade e humor nas conversas. A leitura de uma carta, ditada por Andreia e que Leid lê para a amiga, atinge um nível de emoção verdadeira.

A discussão sobre o prazer sexual, sem a presença do homem, tem um humor genuíno e espirituoso, que só as mulheres com senso de liberdade têm a capacidade de desenvolver. A cerzidura entre as marcas do passado – mais velha, Andreia sofreu com a infância passada nas ruas – e o que o presente pode oferecer escancara para o espectador quantas vidas como aquelas estão sendo vividas na periferia das nossas cidades.

Sem ceder à vitimização, Juliana também mostra que mesma naquelas condições, à sombra dos homens e da violência que eles perpetram, as mulheres se movimentam em busca de saída, seja dançando ou contando suas histórias, com força e sinceridade. Exaltado em mais de 40 festivais dentro e fora do Brasil, Baronesa conquistou um lugar próprio no cinema brasileiro.


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