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Crítica: Sicário – Dia do Soldado, de Stefano Sollima

28 / jun
Publicado por Ernesto Barros às 19:57

Benício Del Toro e Josh Brolin. Foto: Sony Pictures/Divulgação

Se tivesse chegado aos cinemas duas semanas atrás, o longa-metragem Sicário – Dia do Soldado, que estreia nesta quinta-feira (28/6), simultaneamente com os Estados Unidos, teria ganho um destaque maior em meio à política de tolerância zero do governo Donald Trump contra os imigrantes ilegais que chegam ao País pela fronteira com o México, cujo auge foi a medida desumana de separar crianças dos seus pais. A arte não imita a vida, necessariamente, nesta continuação do filme realizado em 2015, mas ele traz uma forte conexão entre juventude e violência, o que faz com que o espectador tente entender um quebra-cabeças em que as peças não se encaixam direito.

Para não entrar no assunto a seco, o roteirista Taylor Sheridan insere um novo elemento no barril de pólvora em que a questão vem se transformando ao longa dos anos, agora ainda mais intensificada pelos despropósitos de Trump. Como a mercadoria principal que passa pela fronteira são pessoas, o que aconteceria se terroristas também se infiltrassem nos Estados Unidos por esse caminho? Se nos aeroportos a vigilância é mais intensiva, pelo mar e por terra a facilidade é bem maior.

Quase uma tese, o prólogo do filme é uma variação da guerra ao terror, depois que quatro homens-bombas causam dezenas de mortes num supermercado de Kansas City. Na investigação chefiada pelo especialista (mercenário?) Matt Craver (Josh Brolin), que vai à África em busca das identidades dos assassinos, descobre-se que os cartéis mexicanos, além das drogas e dos imigrantes ilegais, agora estão levando terroristas para o território americano.

Como uma coisa se liga a outra, a CIA corre logo e prepara uma investida para acabar com os cartéis, através de um ideia que parece mostrar que o vale tudo é arma da Casa Branca: para jogar os cartéis uns contra os outros, a diretora da agência Cynthia Foards (Catherine Keener) aprova a missão em que o time de Craver, agora acrescido pelo sicário Alejandro Gillick (Benício Del Toro), cujo alvo é o sequestro da adolescente Isabel Reyes (Isabela Moner), filha de Carlos Reyes, um dos mais poderosos e procurados barões do crime do México.

Dirigido pelo italiano Stefano Sollima, que parece ter herdado o DNA do pai, o cineasta Sergio Sollima, que fez muitos faroestes e filmes policiais nos anos 1960 e 1970, Sicário – Dia Soldado tem o poder de não deixar o espectador se desinteressar pela realidade que o filme descortina. Com coragem, Taylor Sheridan mostra que a máquina de guerra dos Estados Unidos pensa atabalhoadamente, como quase tudo em que Donald Trump vem fazendo no país nos últimos anos. Até um possível processo de impeachment é citado por um personagem.

Embora o filme aponte suas flechas diretamente para o governo, há também espaço para uma visão próxima da vida interior dos seus personagens, especialmente de Alejandro e de Isabel, como também do adolescente Miguel (Elijah Rodriguez), que abandona a escola ao ser cooptado por um primo para levar imigrantes ilegais para dentro dos Estados Unidos. Embora boa parte da ação desenvolva em lugares diferentes, o que geralmente diminui o ritmo, o conjunto do filme prevalece.

Um dos pontos que tornam Sicário – Dia do Soldado bastante diferente do primeiro é que o personagem Alejandro encontra em Isabel uma espécie de ligação com o seu passado, como se visse nela uma transferência da filha surda, que teria sido assassinada a mando do pai da menina. Toda a dureza que ele parece carregar no seu rosto encontra uma expressão na personalidade de Isabel, que apesar da fragilidade tem ideias próprias que vão além de sua filiação a um bandido.

Essa questão dos imperativos éticos, que não se deturpam nem mesmo durante a guerra, são também postos em evidência na relação de Alejandro com Matt Craver. Econômico e menos estetizante, Stefano Sollima fez um filme sólido e de crueza exasperante. Como continuação, não fica nada a dever ao primeiro, dirigido por Gilles Villeneuve. Além do interesse maior pelas atitudes insanas de Donald Trump, o filme amarra um novo capítulo da luta pela sobrevivência na fronteira entre os Estados Unidos e o México, que promete.


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