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Crítica: Réquiem para a Sra. J, de Bojan Vuletic

29 / jun
Publicado por Ernesto Barros às 15:50

Mirjana Karanovic. Foto: Zeta Filmes/Divulgação

Ainda hoje vivendo os resquícios da guerra dos anos 1990, a Sérvia parece um país estagnado e sem cor. Pelo menos é isso o que denotam as imagens e os personagens de Réquiem para a Sra. J, de Bojan Vuletic, em cartaz no Cinema da Fundação/Derby. Depois de participar da Mostra Panorama do Festival de Berlin, o filme foi escolhido pela Sérvia para representar o país na categoria de Melhor Filme Estrangeiro do Oscar.

Na verdade, quase todo o filme se passa dentro de um apartamento residencial de Belgrado, onde vivem Jelena (Mirjana Karanovic), a sogra Desanka (Mira Banjac) e as filhas Ana (Jovana Gavrilovic) e Koviljka (Danica Nedeljkovic). O outro personagem é apenas falado, mas sua presença ronda todas as horas da família. É o marido de Jelena, que morreu há um ano.

Em seu segundo longa-metragem, Bojan Volutic demonstra uma grande capacidade para dominar um filme tão duro, focado no pesado drama dessa mulher, que passa os dias prostrada em casa, e a revolta de suas filhas – a mais velha, que morre de trabalhar para sustentar a casa, e a mais nova, uma pré-adolescente, totalmente abandonada. Para completar a cena difícil, além do marido, Jelena também perdeu o emprego.

Em depressão, ela só vê solução para a sua vida: se matar no dia do aniversário da morte do marido. Contando assim tão cruamente, até parece que o filme é uma tragédia em tempo integral. Mas a trajetória de Jelena, muito bem interpretada por Mirjana Karanovic, uma das mais importantes atrizes da Sérvia, é um exemplo de como o ser humano beira o fundo do poço e reencontra sua humanidade.

Um dos mais interessantes traços do trabalho de Bojan Vuletic é que, embora mostre a vida triste dessa mulher, tire as cores da cidade e imponha uma ritmo lento, o filme ganha traços de tragicomédia, fazendo com o que espectador seja conquistado por uma situação nada fácil. Além da questão da depressão da mulher, o cineasta toca numa ferida ainda maior, a precarização do trabalho.

Quando Jelena foi demitida, ele não recebeu indenização e sequer a empresa declarou o pagamento da previdência. A sequência da visita à fábrica, onde encontra ex-colegas trabalhando de graça para cuidar dos documentos dos demitidos, parece saída de um pesadelo de Franz Kafka. Mesmo com todo o tom sombrio, Réquiem para a Sra. J é um filme reconfortantemente humano.


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