26
jul

Crítica: Missão: Impossível – Efeito Fallout, de Christopher McQuarrie

26 / jul
Publicado por Ernesto Barros às 15:07

Tom Cruise. Foto: Paramount Pictures/Divulgação

Desde o adolescente empreendedor de Negócio Arriscado, de 1983, que Tom Cruise faz o personagem principal de quase todos os seus filmes. O mais conhecido entre os 40 longas-metragens que já estrelou é o agente da IMF (Impossible Mission Force) Ethan Hunt, que chega à sua sexta aventura em Missão: Impossível – Efeito Fallout, em cartaz a partir desta quinta-feira (26/7) em circuito nacional. Assim como o anterior Missão: Impossível – Nação Secreta, o novo filme tem roteiro e direção de Christopher McQuarrie, que vem de uma parceria com o ator que já dura 10 anos – a partir do encontro em Operação Valquíria até seus últimos trabalhos, entre outros Jack Reacher: O Último Tiro, No Limite do Amanhã e A Múmia.

Missão: Impossível – Nação Secreta (2015) e Missão: Impossível – Efeito Fallout, ao contrário dos quatro primeiros exemplares da franquia, iniciada por Brian De Palma, em 1996, forma um díptico, quase como se fosse um único filme. Embora o espectador não precise, necessariamente, ver o anterior para não se perder na nova trama, quem estiver com ela fresca na memória vai se sentir muito mais envolvido. Mesmo assim, Christopher McQuarrie traz uma ideia que Brad Bird, em Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (2012), já havia roubado de De Palma: construir a narrativa em torno de sequências de ação e suspense dirigidas com precisão cirúrgica.

Em Missão: Impossível – Efeito Fallout, Ethan Hunt e os companheiros de IMF Benji (Simon Pegg) e Luther (Ving Rhames) estão em Belfast para, aparentemente, fazer um acordo bastante simples: comprar três ogivas nucleares que estão sendo disputadas por homens e grupos que ameaçam a paz mundial, entre eles o conhecido anarquista Solomon Lane (Simon Harris), que já foi dos quadros do MI6 (a agência secreta do Reino Unido), os grupos terroristas O Sindicato e Os Apóstolos e um tal de John Lark, que estaria operando clandestinamente até mesmo dentro na CIA.

Exímio contador de histórias, como bem provou na carpintaria perfeita de Os Suspeitos, Christopher McQuarrie domina cada detalhe da apresentação do filme. Ao mesmo tempo que situa a ação, ele pontua a narrativa com cenas de ação e suspense bem pensadas e executadas com uma fisicalidade que não existia antes de ele chegar à franquia. Após o prólogo em que Ethan e os dois colegas se recompõem para resgatar as ogivas desaparecidas na primeira sequência – ele escolheu proteger a vida de Luther de uma morte eminente –, o agente, agora com o reforço do imprevisível August Walker (Henry Cavill, o Superman), um emissário da Cia, chega a Paris para ter um encontro com a Viúva Branca (Vanessa Kirby), que teria acesso aos artefatos.

Antes de chegar até a jovem mulher, Ethan e August enfrentam um oriental que seria um infiltrado de Lark. É quando começa uma pancadaria sem fim dentro de um banheiro, em que os agentes sofrem para dar cabo ao inimigo, até que são ajudados por Ilsa (a anglo-sueca Rebecca Fergusson, vista recentemente O Grande Show), a mercenária que enfrentou Ethan nos telhados de um teatro em Viena, em Missão: Impossível – Nação Secreta. Na verdade, todas as sequências de ação em Paris são muito excitantes, principalmente a perseguição de moto que o agente sofre nas ruas da cidade. Para provar que não é mera propaganda sua dispensa de dublês, Tom Cruise faz todas as cenas de ação sem capacete, oras.

Assim como o modelo de filme de espionagem foi estabelecido desde que Alfred Hitchcock colocou Cary Grant para correr por metade dos Estados Unidos em Intriga Internacional (1959), as franquias 007 e Missão: Impossível também ficam pulando de país em país. Além da França, o filme passa por Londres e Caxemira, na fronteira entre a Índia e a China, para onde todo o IMF segue, pois vêm de lá os sinais das duas ogivas, que explodiram na nascente de toda a água potável daquela região, onde reside mais de uma terço da população mundial.

Mais do que em todos os filmes anteriores, Missão: Impossível – Efeito Fallout é estruturado para funcionar como a opus magnum da franquia. O efeito de queda a que o título original se refere, por exemplo, é aplicado à perfeição no reencontro entre Ethan Hunt e August Walker: eles medem forças numa disputa de helicópteros e depois em cima de uma ribanceira. As cenas de extremo perigo, realizadas com um apuro absurdo, primam pelo realismo, sem os excessos das imagens geradas por computador (CGI). E isso faz uma enorme diferença na recepção por parte do público, que fica boquiaberto mas não desacredita totalmente no que está vendo.

Sem deixar de ser um filme em que o entretenimento está em primeiro lugar, Missão: Impossível – Efeito Fallout passa bem longe de ser uma diversão barata e esquecível. Apesar de toda a técnica por trás de cada cena do filme, Christopher McQuarrie consegue um feito e tanto ao mostrar o lado mais humano de Ethan Hunt. Há um paralelismo bastante inteligente com a primeira imagem do filme – uma cena idílica que se transforma em pesadelo – e sua última parte, quando o agente vai reencontrar uma figura do passado que ele não consegue esquecer.

Sem nenhuma dúvida, este é o filme que mais desenvolve o homem que está por trás da frieza do agente. Tom Cruise, aos 56 anos, não apenas desafia a idade e os perigos de cenas extravagantes, como também cria um personagem mais condizente com os tempos em que vivemos. Contra todas as expectativas, dessa vez ele deu a Ethan Hunt uma humanidade insuspeitável. Ninguém sabe se daqui a três ou quatro anos, beirando os 60, ele vai ter força e músculos suficientes para tantas proezas. Talvez seja a hora de apelar para os dublês, como todos os atores com juízo costumam fazer. Mas o certo é que esses dois filmes da franquia – especialmente o último – já garantiram um lugar muito especial em sua filmografia.


Veja também