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Crítica: Hilda Hilst Pede Contato, de Gabriela Greeb

02 / ago
Publicado por Ernesto Barros às 18:47

Luciana Inês Domschke em Hilda Hilst Pede Contato. Foto: Imovision/Divulgação

Nunca se falou tanto da escritora paulistana Hilda (de Almeida Prado) Hilst em tão pouco tempo. A poeta, ficcionista, dramaturga e espírito livre, morta em 2004 aos 73 anos, ganhou uma biografia, teve a obra relançada e foi homenageada pela 16ª Flip – Festa Literária Internacional de Paraty, que terminou no último domingo. Entre tantas homenagens, uma das mais reveladoras é o longa-metragem Hilda Hilst Pede Contato, de Gabriela Greeb, em cartaz a partir desta quinta-feira (2/8) no Cinema da Fundação/Derby e Museu, em Casa Forte.

O filme é um requintado exercício cinematográfico, que se apoia tanto na ficção quanto no documentário, mas que não pretende ser uma cinebiografia. Trata-se de um recorte da rica vida de Hilda, de um momento ímpar de sua vida pessoal, quando se aprofundou em investigações empíricas sobre a imortalidade da alma. Entre 1974 e 1979, ela se enfurnou na famosa Casa do Sol, um espaço de pesquisas erigido em um sítio de Campinas, no interior de São Paulo, para conversar com os mortos. Na época, até os amigos mais próximos achavam que Hilda estava louca.

O método dela tinha pouco com a ver com o espiritismo. Munida de um gravador, tentava se comunicar com parentes e amigos mortos por meios dos experimentos do cientista sueco Friedrich Jurgenson, o pai do EVP – Eletronic Voice Phenomenon. “Hilda falando, contato, contato”, repete noite após noite. A voz é da própria Hilda, retirada de gravações que ela deixou e que Gabriela Greeb teve acesso.

Entre os amigos, a poeta invoca escritores e filósofos que influenciaram sua vida e seu trabalho, como Albert Camus, Ernest Becker e Nicos Kazantzakis, entre outros. E até mesmo pessoas que não eram do seu círculo, como o jornalista Vlado Herzog – ela pergunta como ele morreu, se foi morto ou se suicidou. Além do material de arquivo pessoal de Hilda – há gravações dela cantando e de reuniões com amigos –, Gabriela encena as sessões com a atriz Luciana Inês Domschke, que também fala e amplia a dupla narração do filme.

Embora fuja do viés espírita, Gabriela decididamente fez um filme sobrenatural, tanto no nível imagético quanto sonoro. O diretor de fotografia português Ruy Poças (As Boas Maneiras, entre outros) e seu conterrâneo, o sonoplasta Vasco Pimentel, comungam de um sentimento de que estão recriando um mundo muito além do passado. Obviamente, não há intenção de Gabriela em retratar o medo, mas de insinuar o mistério que cerca a morte.

Para quebrar qualquer dúvida, a faceta documentária de Hilda Hilst Pede Contato é resolvida com entrevistas e um encontro de amigos na Casa do Sol, que relembram a personalidade dela, sua literatura e os livros que mais a influenciaram.


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