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Crítica: Nico, 1988, de Susanna Nicchiarelli

07 / ago
Publicado por Ernesto Barros às 21:31

Trine Dyrholm. Foto: Supo Mungam Films/Divulgação

Um dos mais recorrentes problemas das cinebiografias – até quando o retratado já morreu e ninguém mais se importa com o que ele fez – é inventar uma vida em que todas as dores são esquecidas e os traumas deixados para trás. O relato biográfico apresentado em Nico, 1998, dirigido pela atriz e diretora italiana Susanna Nicchiarelli, faz jus à personalidade e aos últimos dias de vida da cantora alemã Christa Päffgen, a.k.a Nico. O filme será exibido nesta terça, 7/8  (às 10h30),  e nesta quarta, 8/8 (às 17h30), no Cinema São Luiz, na programação do 8¹/² – Festa do Cinema Italiano.

Também autora do roteiro, Susanna Nicchiarelli não se mostra interessada na mitologia em torno de Nico, que foi um dos maiores ícones do rock do final da década de 1960, quando o artista plástico Andy Warhol, então empresário do Velvet Underground, a alçou como cantora da banda liderada por Lou Reed. A Nico que vemos no filme é uma mulher que já perdeu a juventude, é viciada em heroína e ainda acredita na música que faz, embora se apresente em shows que ninguém vai ver.

A atriz dinamarquesa Trine Dyrholm está soberba no papel de Nico. Como todo mundo só lembra da jovem valquíria que namorou todos os roqueiros e galãs da época, ela ficou livre de comparações e criou uma Nico quase do zero. Se isso, de saída, já é uma largada e tanto, Trine ainda canta todas as músicas que ficaram famosas na voz da cantora, desde All Tomorrow’s Parties (do álbum de estreia The Velvet Underground and Nico) até sua canção mais famosa, a desesperada My Heart is Empty. A atriz, conhecida no Brasil pelo longa Amor é Tudo o Que Você Precisa, de Susanne Bier, não erra o tom uma cena sequer.

Nem de longe o filme segue as cartilhas das cinebiografias hollywoodianas e francesas, que enchem os cinemas mundiais com histórias edificantes e anódinas até dizer basta. Quem não conhece quase nada dos últimos anos da vida de Nico vai se emocionar e se deixar seduzir pela lendária musa teutônica, por sua integridade artística e vozeirão hipnótico.

Nico, 1988 é puro rock’n’roll, mas é ainda mais do que isso: é uma balada punk, um road movie selvagem, a cortar as entranhas de uma Europa pobre e dividida, a poucos meses dos últimos suspiros do comunismo e do thatcherismo. Quase dois terços do filme acompanham a longa e cansativa última turnê da carreira da cantora, que morava em Manchester, na Inglaterra. Quando o futuro empresário dela, Richard (John Gordon Sinclair), pergunta porque ela mora ali, Nico (ou Christa, como gosta de ser chamada) diz que a cidade se parece com a Berlim do fim da guerra.

Longe de procurar o choque, a cineasta não se furta em pontuar os altos e baixos da cantora e da relação que manteve com o filho, que foi criado pelos avós franceses (os pais do ator Alain Delon, que até hoje não reconheceu a paternidade de Ari, nascido em 1962). Num rápido flash-back, o menino é visto numa festa, aproveitando restos de bebidas. Os problemas psicológicos, a dependência química e as tentativas de suicídio marcaram a vida dele.

Esses fatos ilustram a vida trágica de Nico quase como uma sucessão de provações, mas a diretora italiana vai mais além na procura da verdade última da artista. É quando Nico explica a necessidade que tem em carregar um gravador e captar sons, que, aparentemente, não fazem parte de suas músicas. Quando ela diz que procura o som de Berlim bombardeada, que ouviu na infância, e não consegue encontrar em lugar nenhum, o filme deixa entrever um pesadelo que foi comum a toda sua geração, que tentou mudar o mundo na década de 1960 e explodiu as portas da percepção.

Nico, 1998 é um retrato sensível de uma cantora que ainda não foi de todo reconhecida. O formato retangular da imagem, proposto pela diretora de fotografia francesa Cristel Fournier, para além de qual modismo, consegue isolar a figura da cantora para a possibilidade de um olhar íntimo, revelador de sua alma e de sua poesia.

 


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