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Crítica: Ferrugem, de Aly Muritiba

04 / set
Publicado por Ernesto Barros às 21:15

Tiffany Dopke e Giovanni di Lorenzi. Foto: Olhar Distribuição/Divulgação

Quando um diretor de cinema acerta no alvo logo no primeiro filme, o maior desafio é que o próximo deve ser melhor do que anterior. A síndrome do segundo filme sempre acompanha os cineastas, quase intimando-os a uma espécie de superação de si mesmo. Isso aconteceu recentemente com o pernambucano Kleber Mendonça Filho, com a crítica e os espectadores na torcida para que Aquarius (2015) fosse melhor que O Som ao Redor (2012), sua bem sucedida estreia na ficção, que conseguiu o feito de entrar na lista dos 10 melhores filmes do ano do The New York Times. Se um é melhor do que o outro, pouco importa, o que interessa que Aquarius virou um fenômeno desde a sua estreia, no Festival de Cannes.

Quem acaba de passar no teste do segundo longa de ficção é o cineasta baiano, radicado em Curitiba, Aly Muritiba. Em 2015, Para Minha Amada Morta, sua estreia no formato, também foi considerada exemplar. Desde então, a espera pelo segundo filme de Muritiba também gerou ansiedade. Será que ele também viveu os temores da síndrome do segundo filme? O certo é que Ferrugem, seu segundo longa de ficção, não fica atrás de Para Minha Amada Morta, que parecem filmes gêmeos – assim como O Som ao Redor e Aquarius – em vários aspectos.

Desde o início do projeto – premiado em San Sebastián, ainda como work in progress –, Ferrugem já vinha dando sinais de seu valor, o que foi concretizado ao participar de Festival de Sundance, em janeiro passado, e, há menos de uma semana, no Festival de Gramado, onde ganhou três Kikitos: Melhor Filme, Melhor Roteiro e Melhor Desenho de Som. Ferrugem está em cartaz no Kinoplex Boa Vista e no Cinépolis Guararapes, em Jaboatão.

Nos dois filmes, Muritiba traz para a tela histórias complexas de crime, dor e vingança. Ex-agente penitenciário – tema de vários curtas e longas, realizados antes das ficções –, o cineasta viu de perto muitos personagens que carregavam histórias de envolvimento com crimes e mortes. Em Ferrugem, o ambiente que ele procura investigar não poderia ser mais diferente: o filme se passa entre jovens adolescentes de uma escola de classe média, com meninos e meninas expondo tudo o que fazem nas redes sociais ou nos aplicativos de mensagens de celular.

Ferrugem é uma tentativa de abarcar a contemporaneidade a partir da atomização das informações e de sua contrafação, a falha de comunicação entre pais e filhos, como se o excesso e a miríades de distrações da adolescência não mais permitisse o contato real entre os adultos, também conformados em seu mundo de trabalho e obrigações. Muritiba trabalha nesse chave com muito cuidado, sem se apoiar em ideias pré-estabelecidas e preconceitos, graças a um roteiro burilado a exaustão e bons intérpretes.

O filme coloca na tela a questão do linchamento moral nos aplicativos de mensagens e nas redes sociais – o cyberbullying –, após uma estudante ter um vídeo pessoal, uma transa com o namorado, circulando nos celulares de estudantes e até num site pornô. Dividido em duas partes, Ferrugem trata de uma reação provocada pelo dor e a humilhação, e, em seguida, sobre o reflexo que uma atitude radical provoca numa família em frangalhos, que precisa recompor os pedaços e olha pra frente.

Amigo de Tati (Tiffany Dopke, num desempenho brilhante), uma adolescente como tantas outras, que já transa com os namorados e tudo comenta na internet, o calado Renet (Giovanni di Lorenzi) carrega em seu silêncio uma verdade que só ele e os amigos sabem. Com a mesma primazia para a tela larga, o ritmo compassado e os longos planos-sequências que acompanham os passos do personagens, Muritiba conduz a narrativa de Ferrugem com a segurança já entrevista em Para Minha Amada Morta. Nestes dois filmes, dispositivos da modernidade – uma fita VHS, no primeiro; um vídeo, no segundo – causam traumas na mente dos seus personagens masculinos, que introjetam uma dor primal até que ela se transforme em vingança, ou em seu desejo.

Se em Para Minha Amada Morta há uma evidente filiação com o cinema de gênero, o que, de certa maneira, deixa o filme numa bolha, em Ferrugem acontece exatamente o contrário. O que fica do filme, ao fim e ao cabo, é quase um pedido de socorro, mas sem golpes baixos emocionais, para que pais e filhos, jovens e adultos, não se escondam em seus mundos. Trata-se, sem dúvida, de uma fábula moral – mas nem um pouco didática – para esses tempos difíceis, em que os mais jovens, isolados em celulares e telas de computador, não percebem que cada ação corresponde a uma reação.


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