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Crítica: As Herdeiras, de Marcelo Martinessi

05 / set
Publicado por Ernesto Barros às 21:37

Margarita Irun e Ana Burns. Foto: Imovision;Divulgação

Sem apoio estatal e feito a duras penas por produtores independentes – com apoio de financiamento estrangeiro –, o cinema paraguaio de vez em quando sai das sombras com um filme que conquista o mundo. Depois de Hamaca Paraguaya  (2006), de Paz Encina, e de 7 Caixas (2012), de Juan Carlos Maneglia e Tana Schémbori, o filme paraguaio da vez é As Herdeiras (2018), de Marcelo Martinessi, que estreia amanhã no Cinema da Fundação/Derby e Museu.

Para ser realizado, o filme buscou parceiros na Alemanha, França, Noruega, Uruguai e no Brasil. Longe do experimentalismo de Paz Encina e da estética do thriller da dupla Meneglia e Schémbori, o estreante Martinessi acerta em cheio nesse retrato da condição feminina, a partir da história de duas mulheres, já entradas na terceira idade, oriundas da alta classe média de Assunção, que depois de vários anos de vida em comum são confrontadas com a falta de recursos e uma relação já exaurida pelo tempo.

Apesar de ser um filme que só tem olhos para as mulheres – os homens não estão sequer ao redor delas –, o ponto de vista escolhido por Martinessi não é coral. Depois de um pequeno entreato, em que testemunhamos o cotidiano de Chela (Ana Burns) e de Chiquita (Margarita Irun), quando começam a vender móveis e utensílios para pagar débitos, o diretor já assinala que caberá à Chela, triste e deprimida, trilhar um caminho que a levará para um reencontro consigo mesma.

O ponto de partida, aparentemente um momento que a levaria ainda mais para baixo, é quando Chiquita, depois de umas tramoias financeiras, acaba indo parar na prisão. Naturalmente mais escolada, ela não sofre um grande abalo com a decisão da justiça. Tanto dentro quanto fora da prisão, Chiquita permanece a mesma, fumando feito uma chaminé e decidida a vender todos os bens, ou seja, tudo o que elas herdaram de suas famílias ricas – mesas francesas, pianos, prataria e pinturas –, inclusive um velho Mercedes.

Esse carro, mais um objeto à venda no espólio das duas mulheres, ganha status de símbolo quando Chela, subitamente, torna-se motorista particular de outras senhoras ricas, que se reúnem sempre para jogar cartas. De certa maneira empurrada pelas circunstâncias, como parece ter sido parte de sua vida, voltar a dirigir o velho veículo, uma lembrança dos seus bons tempos, a levará a uma jornada de transformação.

Mas não será apenas essa memória que muda o semblante e a disposição de Chela. Angy (Ana Ivanova), uma mulher mais nova, que trabalha na casa das velhas damas, é que será o gatilho de sua virada. A aproximação com essa mulher, bonita e desejada pelos homens, que se transforma em confidente e prestadora de serviço, pois Angy vai precisar de alguém que leve a mãe ao hospital, é um gatilho também para sua sexualidade adormecida.

O ritmo lento do filme e as longas cenas na casa, quase sempre às escuras e à meia-luz, não atrapalham em nada na composição de As Herdeiras. Mas, para além dessa estética de cinema de câmara, o filme se engrandece pela performance de suas três atrizes, especialmente Ana Burns, que ganhou o prêmio de Melhor Atriz em Berlim e vários outros festivais, inclusive em Gramado, na semana retrasada.

A fragilidade, a tristeza e o medo Chela, que Ana Burns consegue levar para a tela de forma genuína, tocam o espectador profundamente. Ao mesmo tempo, também percebemos o quanto a atriz consegue ir no novo processo de vida de sua personagem, seja quando muda uma roupa ou usa um novo para de óculos. Esses detalhes, acumulados ao longo do filme, compõem um vívido retrato da Chela, sem que ela quase não precise de palavras para se mostrar. Mais uma vez, o cinema paraguaio, tão desconhecido, consegue furar o bloqueio do seu insulamento e dá vida a um filme singular, um obra-prima sobre o desejo e a procura da felicidade.


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