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Crítica: Café com Canela, de Ary Rosa e Glenda Nicácio

07 / set
Publicado por Ernesto Barros às 15:56

Aline Brunne e Valdinéia Soriano. Foto: Arco Audiovisual/Divulgação

Café com Canela, primeiro longa-metragem da dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio, em cartaz no Cinema da Fundação/Derby e Museu, em Casa Forte, é um dos filmes mais originais e inteligentes do cinema brasileiro recente. Desde que estreou no Festival de Brasília, no ano passado, cresce a cada revisão. Entre suas inúmeras virtudes, o filme dirigido pelos dois ex-alunos da Universidade Federal do Recôncavo Baiano respira afeto, dignidade, calor, alegria, dor e superação em cenas realizadas com criatividade, frescor e inventividade raras.

Ary Rosa e Glenda Nicácio foram estudar cinema na cidade de Cachoeira e fizeram de lá a morada deles. Mas quem mora em Cachoeira, mora também em São Félix, separadas pelo Rio Paraguaçu – como Juazeiro e Petrolina são divididas pelo Rio São Francisco. A experiência de viver nas duas cidades está presente em quase todo o filme, pois os personagens circulam por elas – ora andando a pé, ora de bicicleta, cortando ruas e pontes, sempre com a correnteza do rio como testemunha.

A cidade, claro, seria apenas uma cenário se não tivesse gente de verdade a percorrer suas artérias de terra e sangue. Café com Canela, fazendo justiça à população nativa das cidades, se destaca também por ter os personagens e técnicos, entre eles a diretora Glenda, quase cem por cento negros. Essa representatividade, no entanto, não é o que faz o filme ser o que ele é, porque Café com Canela passa bem longe das questões de raça, já que estão inextricavelmente ligadas aos personagens e à sua cultura, sem a mínima necessidade de evidenciá-las.

O que o filme quer levar para o espectador é um jeito muito especial de se contar um história, longe da mesmice de tantos outros que acompanhamos no cinema, quase sempre repetindo os mesmos esquemas narrativos, arranjos de imagem e som já manjados e a falta de noção de que a montagem é o único elemento específico da linguagem cinematográfica. Seus primeiros 15 minutos são um exercício de montagem antológica, que os espectadores, pelo menos os mais aptos para descobrir o novo, ficam boquiabertos com tanta liberdade e ousadia.

Por meio de duas sequências intercaladas – uma do passado, outra do futuro –, que terminam numa montagem de closes de rostos, o filme já diz tudo o que virá pela frente, quando o destino se ocupa em unir, mais uma vez, as trajetórias de Margarida (Valdinéia Soriano, vencedora do Candango de Melhor Atriz), uma ex-professora, e Violeta (Aline Brunne), uma ex-aluna, que hoje vende coxinhas para ajudar no orçamento familiar.

Com um vigor e uma graça tocantes, Ary e Glenda cruzam a história das duas mulheres, marcadas pela perda, que se reencontram após longos anos de separação. Margarida vive fechada em casa, sem saber como vencer a dor de ter perdido um filho pequeno, enquanto a órfã Violeta (Aline Brunne) se desdobra para cuidar dos filhos, da avó e do casamento, fritando coxinhas para vender em bares.

As sequências com a professora são particularmente interessantes pelo uso do som, que reproduzem diálogos de uma festa de aniversário do filho. Numa delas, o passado parece falar, quando ela abre uma caixa de fotografias e o quarto se enche de conversas. Enquanto no dia a dia de Violeta, nos encantamos com a fala e colorido dos personagens e suas histórias tristes e engraçadas.

O humor é outra força do filme, em cenas que só faltam fazer com que os espectadores caiam da poltrona, de tanto rir com as situações e os diálogos dos personagens, especialmente de Cidão (Arlete Dias), uma amiga de Violeta, que rouba todas as cenas com seu linguajar peculiar e cheio de expressões populares. Mas o filme traz muitas outras surpresas, que deixam os cinéfilos sem ação, entre elas a participação do ator Babu Santana, muito conhecido pelo papéis violentos em filmes e novelas, que faz um médico gay.

Uma cena em particular, de tão inusitada, deixa qualquer cinéfilo de queixo caído: sem nenhuma preparação, Ary e Glenda fizeram um plano subjetivo do cachorro Felipe, que pertence a Babu e seu companheiro. A câmera, arfante como um cão, corre em direção ao personagem de Babu, que dá um leve toque na sua cabeça. Quando o público percebe a ousadia, ele já foi completamente fisgado pela mágica de Café com Canela.


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