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Crítica: Papillon, de Michael Noer

03 / out
Publicado por Ernesto Barros às 21:36

Rami Malek e Charlie Hunnan. Fotos: Imagem Filmes.

A um ano do cinquentenário de sua primeira publicação, o romance autobiográfico Papillon, no qual o francês Henri Charrière conta suas memórias da prisão, especialmente a espetacular fuga da Ilha do Diabo, na Guiana Francesa, ganha uma segunda adaptação cinematográfica. Agora pelas mãos do cineasta dinamarquês Michael Noer, o novo Papillon é uma experiência que pouco acrescenta ao espectador, mais ainda àquele que conhece a primeira versão. Lançado em 1973, Papillon foi um grande sucesso de bilheteria, tinha a mão forte do diretor Franklin J. Schaffner e a química perfeita de Steve McQueen e Dustin Hoffman como os protagonistas do filme.

Mas seria impensável que uma nova versão, mesmo fraca, não trouxesse sequer uma novidade. Com exceção do óbvio apelo à sanguinolência, o roteirista Aaron Guzikowski aproveitou logo o que Dalton Trumbo não havia privilegiado anteriormente: a vida pregressa dos dois prisioneiros, o ladrão de cofres Papillon e o falsário Louis Dega. Assim, após uma ceninha de Papillon na prisão, a trama volta à Paris dos anos 1930, com as atividades ilícitas dos homens. Apesar de não ser a Paris de verdade, a reconstituição convence, embora a dupla de atores escolhida para substituir McQueen e Hoffman não esteja à altura.

Ao contrários deles dois, que já tinham carreiras estabelecidas em Hollywood, com vários sucessos nas costas, os novatos Charlie Hunnan e Rami Malek são mais conhecidos por quem acompanha séries de TV, embora os dois estejam em franca ascensão. Essa diferença, entretanto, diz muito sobre o momento atual, com os astros que nasceram nos seriados da TV – Hunann, em Sons of Anarchy; Malek, em Mr. Robot – a cada dia conquistando mais espaço no Cinema. Malek, por exemplo, vem aí no fazendo o papel de Freddie Mercury em Bohemian Rhapsody.

Esse início, que mostra as prisões de Papillon (Hunnam) e Louis Dega (Malek), e o transporte deles até a Guiana, entretanto, não são suficientes para fazer de Papillon um filme inesquecível. Ao contrário, iremos testemunhar uma série de desapontamentos, sem a necessidade de se ficar comparando os dois filmes o tempo todo. Para começar, a produção não teve dinheiro para respeitar o local onde a história se passou. A paisagem tropical de Papillon não convence, com suas cores amarronzadas e escuras, sem nada do verde que seria esperado. Sem grana para filmar na América Latina ou no Caribe, os produtores escolheram locais na Europa mesma, em países como a Sérvia, Montenegro e Malta.

Embora já experiente, Michael Noer não vai além do mediano na condução do filme, que se arrasta lentamente, apenas tirando o espectador do torpor quando apela para a violência explícita. O que antes era sugerido e entrevisto nas sombras, é posto em evidência sem a menor cerimônia. Um exemplo é a cena em que um detento, que engoliu um tubinho de cédulas, é estripado vivo por outro preso, que tira o dinheiro de sua barriga à faca.
A entrada em cena do ator dinamarquês Roland Moller, como o detento Celier, que participa de uma fuga com Papillon e Degas, eleva a temperatura. Afinal, Moller já virou um roubador de cenas, como já mostrou em Atômica, O Passageiro e no recente Arranha-Céu: Coragem Sem Limite. A cena em que eles decidem o destino da fuga, apesar de violentíssima, é a melhor do filme.

Não há muito o que justifique uma nova refilmagem de Papillon. Até o mesmo o roteiro caminha para o lado errado, quase sem dar chance para que os personagens mostram suas faces ocultas. Sem humor e com diálogos pífios, Charles Hunnam e Rami Malek fazem um conjunto capenga, apesar ser visível o quanto se dedicaram para dignificar seus personagens, mas a sombra deixada por Steve McQueen e Dustin Hoffman é tão escura que essa nova versão de Papillon deve ser esquecida em bem pouco tempo.


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