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Crítica: Venom, de Ruben Fleischer

04 / out
Publicado por Ernesto Barros às 12:00

Venom. Foto: Columbia Pictures.

Na onda gigantesca de adaptações de histórias em quadrinhos de super-heróis – insuflada pelo sucesso planetário da produções da Marvel Studios nos últimos 10 anos –, os fãs e os críticos de cinema querem a todo custo que cada filme do gênero seja uma obra-prima. Se não for menos do que isso, ele não presta nem mesmo como diversão. Menos. Só o tempo poderá dar o valor exato de cada um deles. A maioria não passa de diversão ligeira, focada no público adolescente e em adultos que não largaram o prazer de ler gibis, o que não é ruim. Mas, acreditar que a adaptação de Venom, que estreia nesta quinta-feira (4/10) nos cinemas, seria algo mais do que é, demonstra desconhecimento do universo das histórias em quadrinhos.

Afinal, que mal há num filme despretensioso, que visa principalmente tirar algumas risadas de uma plateia ampla? Ao contrário do díptico Deadpool –, com outro personagem da Marvel, também dos anos 1990 –, Venom não tem palavrões, insinuações sexuais e violência explícita, embora o personagem seja faminto por carne viva e muito assustador. Talvez a expectativa dos fãs fosse outra, paciência. Descontando isso, o filme não aborrece em sua mistura de ação, aventura e parcas doses de horror. Nada muito diferente do que o diretor Ruben Fleischer havia feito em Zumbilândia (2010), seu primeiro longa.

A maior surpresa de Venom é a desenvoltura cômica de Tom Hardy, um ator marcado por filmes pesados e violentos. No universo das adaptações das histórias em quadrinhos, ele é conhecido pelo personagem Bane, de Batman, o Cavaleiro das Trevas Ressurge. Tom Hardy é Eddie Broke, um jornalista do Clarín Diário. Sim, ele é quase uma nota de roda-pé da histórias de Homem-Aranha e inclusive já foi interpretado por outro ator (Topher Grace) em Homem-Aranha 3 (2007), de Sam Raimi. Agora, a Columbia Pictures, antiga detentora dos direitos de O Homem-Aranha, que já voltaram para a Marvel, fez outro acordo com a Casa de Ideias para explorar o personagem como um spin-off, mas sem ter ligações nem com o Homem-Aranha nem com o MCU (Marvel Cinematic Universe). Por isso, Eddie Broke e sua cara-metade, Venom, ganharam um filme só para eles, com possibilidades de ter continuações (fique alerta às cenas pós-créditos).

Eddie/Venom são dois lados de uma mesma moeda. Uma espécie de Dr. Jekyl e Mr. Hyde que não se odeiam, apesar da situação inusitada. Eddie, um repórter investigativo de passado nebuloso, fugiu de Nova York e encontrou espaço numa estação de TV de São Francisco. Mas seu faro de repórter, que não respeita barreiras em busca de notícias, acaba fazendo com que Eddie ponha os pés pelas mãos mais uma vez. Ele invade o computador da namorada e descobre alguns processos sigilosos contra o cientista Carlton Drake (Riz Ahmed), que estaria fazendo experiências com seres humanos.

Após a desastrada entrevista, Eddie e Anne acabam despedidos. E Eddie, depois de voltar a ser um perdedor, de repente tem um alienígena hospedado em seu corpo. Com uma bocarra cheia de dentes pontiagudos – às vezes, seu sorriso lembra um tubarão de boca aberta –, e uma fome sem fim –, o que obriga a Eddie a comer o que vier pela frente, até conhecer os gostos de sua metade –, Venom tem bom-humor e se afeiçoa por Eddie. “Eu também era um perdedor no meu mundo, é melhor ficar aqui”, diz para o repórter.

A queda para a comédia pastelão pode parecer indigesta a princípio, mas o diretor Ruben Fleischer quase sempre mescla cenas de ação e de efeitos especiais à receita. Ele acerta, por exemplo, numa louca perseguição de carros a uma moto, dirigida por Eddie, pela ladeiras de São Francisco. Em algum momento, a correria lembra as cenas de Bullit, em que Steve McQueen mostrava sua habilidade no volante pelas mesmas ruas da cidade americana. Ainda assim, é a bagaceira que impera em quase todo o filme.


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