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Crítica: O Futuro Adiante, de Constanza Novicki

05 / out
Publicado por Ernesto Barros às 17:21

Pilar Gamboa e Dolores Ponzi. Fotos: Supo Mungam Films/Divulgação

A amizade feminina é um tema muito comum no cinema e na TV. Seja em qual gênero for, o assunto já rendeu filmes divertidos e emocionantes, nos quais as melhores amigas lutam de mãos dadas por ideais comuns, contra a opressão dos homens e do estado. Em outros, simplesmente crescem juntas – da idade mais tenra à vida adulta, entre surpresas e sobressaltos porque, apesar da amizade, ninguém é igual, apesar de semelhante. O longa-metragem argentino O Futuro Adiante é uma história terna e sensível sobre a amizade entre as mulheres. O filme está em cartaz no Cinema da Fundação/Derby e Museu, em Casa Forte.

Num mercado de trabalho totalmente dominado pelo homens, ganha em veracidade se um filme com esse tema foi escrito e dirigido por uma mulher. E sem dúvida que o toque particular da argentina Constanza Novicki – estreando no longa-metragem, depois de uma larga carreira de roteirista – está presente na história que ela conta em O Futuro Adiante, ao acompanhar os altos e baixos da amizade entre as amigas Romina (Dolores Fonzi) e Florência (Pilar Gamboa), capturados em três momentos de suas vidas. Sem anunciar um fim para cada bloco, as elipses pegam de surpresa o espectador acostumado à linearidade das narrativas audiovisuais.

O filme abre com uma imagem que voltará a aparecer no futuro de Romina e Florência, como se fosse uma baliza de tudo que viveram e foram acumulando com o tempo. Nessa primeira sequência, as pré-adolescentes Romina e Florência, que adoram balé e novelas de TV, aparentemente mexicanas, seguem uma coreografia em que os passos delas nem sempre estão sincronizados. Embora sejam diferentes, a cumplicidade supera qualquer aresta, ainda mais porque os pais de Florência vivem brigando e a mãe de Romina gosta da amiga da filha como se fosse a mãe dela.

Em plena puberdade, as amiguinhas também se encantam com os meninos da escola. Constanza dá um exemplo de cineasta que aprendeu com Alfred Hitchcock como filmar um beijo. No primeiro encontro de Florência com um colega de classe, a câmera dá dois giros de 360 graus em torno do casal, criando um momento intenso da beleza e da pureza da adolescência.

Por duas vezes mais, Constanza irá avançar no tempo, quando vamos encontrar as amigas com 20 e poucos anos e, por fim, beirando os 40, já com filhas, ex-maridos e, suponhamos, metas já cumpridas – talvez o futuro adiante que a diretora alude no título. O mais interessante nesses saltos no tempo é que eles acontecem em momentos em que as amigas estavam sem se ver, em virtude de algo que motivou a separação. Enquanto Florência, escritora de novelas românticas, encontrou o caminho do sucesso no México, Romina ficou em Buenos com seu emprego de contadora da Receita Federal.

Praticamente centrada na duas personagens, nas filhas e nos companheiros, a cineasta aposta na simplicidade de um microcosmo familiar. Ao criar as duas amigas como pessoas imperfeitas e sujeitas aos seus desejos, ou a falta deles, Constanza contrapõe o futuro de Florência, mais aventureira, à imobilidade de Romina. É isso o que gera as maiores cobrança entre elas, principalmente por parte de Florência, que parece querer mudar a personalidade da amiga.

É bom que se diga que O Futuro Adiante não se filia à conhecida excelência do cinema argentino, buscada especialmente na tradição do melodrama burguês, excessivamente romanesco e cheio de personagens. Mas ela também não abre mão da interpretação natural das suas atrizes: Dolores Fonzi e Pilar Gamboa têm uma química e tanto.


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