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Crítica: O Primeiro Homem, de Damien Chazelle

18 / out
Publicado por Ernesto Barros às 19:53

Ryan Gosling. Foto: Dreamworks-Universal Pictures/Divulgação

Contar no cinema a história da missão Apollo 11, que levou o primeiro homem à Lua, num tempo como o atual, com o republicano Donald Trump na Casa Branca, não parecia uma ideia muito boa. Afinal, como deixar de lado o ufanismo e as imagens que simbolizaram aquele momento, quando os Estados Unidos estavam metidos em tantos problemas, para que o filme não ficasse politicamente tendencioso. Além dos milhões consumidos no projeto da conquista da Lua, insuflado no começo da década de 1960 pelo presidente democrata Kennedy, o país estava ainda atolado até o pescoço na Guerra do Vietnã e com sérios problemas com a comunidade negra.

O longa-metragem O Primeiro Homem, que estreia nesta quinta-feira (18/10) em circuito nacional, tenta a todo custo não trazer ecos sociais e políticos do passado que façam conexões com a era Trump. Aparentemente, talvez essa seja a maneira mais justa que Damien Chazelle encontrou para contar a história sob o ponto de vista de Neil Armstrong, um personagem real com muito em comum com o baterista de Whiplash: Em Busca da Perfeição, de 2014, e o pianista de La La Land: Cantando Estações, de 2016, seus filmes anteriores. Nestes três personagens, é perceptível como os ditames da profissão estão acima dos valores comuns da vida em família ou com o interesse pelos outros.

Ryan Gosling interpreta Neil Armstrong na mesma clave do pianista de La La Land, também marcado por fatos do passado. Essas experiências dolorosas aparentemente forjaram uma frieza que, de uma maneira um tanto quanto esquizofrênica, permitiram que eles suportassem todos os perigos e conquistassem seus ideais. No caso de Armstrong, ele e a mulher Janet (Clare Foy, a rainha Elizabeth da série The Crown) sofreram uma perda incalculável com a morte da filha caçula, Karen (Lucy Strafford), vítima de câncer. A perda da filha transforma-se num vazio que vai seguir toda a trajetória de Armstrong – o que aumentava sua dificuldade de relacionamento com a família e companheiros, mas que o preparava às situações imponderáveis de sua missão. A presença de Karen é invocada nos momentos mais importantes da vida de Armstrong, que não a esqueceu nem mesmo quando passeou pelo Mar da Tranquilidade do solo lunar.

Esse introjeção de Armstrong, nascida dessa perda, contamina vários aspectos do filme, que tem como base a biografia O Primeiro Homem, a Vida de Neil Armstrong, de James R. Hansen, lançado pela Editora Intrínseca, em setembro passado. Esse relato focado em Armstrong, quase na primeira pessoa, por exemplo, é diametralmente oposto ao romance-reportagem The Right Stuff, de Tom Wolfe. Filmado em 1983 por Philip Kaufman, Os Eleitos parece um faroeste coral ao dar voz aos astronautas do projeto Mercury desde os primeiros testes de Chuck Yeager e sua batalha para quebrar a barreira do som.

Por causa dessa aproximação com Armstrong, Chazelle inclusive cria um certo dogma na maneira de filmar os primeiros voos do projeto Gemini. As cenas são filmadas de dentro da cápsula, com closes no rosto de Armstrong, nos de seus eventuais companheiros, nos botões de controle. De fora, apenas uma câmera lateral, na mesma posição das imagens captadas nos monitores do Cabo Canaveral. Se era para fazer com que os espectadores sentissem a claustrofobia e o clangor das peças metálicas das cápsulas, Chazelle e seus editores de som acertaram na mosca. Todos os preparativos e viagens dos projetos Gemini e Apollo destacados no filme são reconstituídos com o máximo de detalhes, especialmente a riqueza de sons que os astronautas ouviam à sós em suas cápsulas, um som tão enervante que parece o fim do mundo.

Apesar de ser uma biografia em que todos os caminhos levam a um único personagem, Chazelle e seu roteirista, o brilhante Josh Singer (o mesmo de Spotlight – Segredos Revelados, por qual ganhou um Oscar, e The Post – A Guerra Secreta) encontraram espaço para compor a história de Armstrong com outras camadas, ao dar vez para a importância de Janet e dos protestos que o Programa Espacial dos EUA recebeu ao longo de sua existência, até a Missão Apolo 11, que levou Armstrong, Edwin “Buzz” Aldrin e Michael Collins à lua, no dia 20 de julho de 1969.

Embora seja apenas uma sequência, pelo menos o protesto ao programa surge por meio de uma montagem embalada pela canção Whitey on the Moon, escrita por Gil-Scott Heron e cantada por Leon Bridges. Por outro lado, o filme não se escusa em mostrar a importância de Janet, tanto na vida diária com Neil e os filhos, como também na sua atuação ao lado de outras mulheres dos astronautas. Há uma cena particularmente forte, na qual Janet encara o marido no dia anterior à missão da Apolo 11, obrigando-o a falar com os filhos e ensaiar uma despedida. A morte dos astronautas da missão Apollo 1 (Gus Grissom, Ed White e Roger Chaffee), no comecinho de 1967, é mostrada detalhadamente, além de ser enfatizada nas famílias deles.

Os imensos olhos azuis da inglesa Claire Foy, graças aos closes generosos do diretor de fotografia sueco Linus Sandgren, causam imenso impacto na tela. Eles traduzem muito da angústia e da força que ela teve para encarar os superiores os marido, especialmente nos momentos em que a missão parecia dar errado.

Mesmo que Damien Chazelle seja um diretor contratado – a convite de Steven Spielberg, que produziu o filme por meio da Dreamworks –, O Primeiro Homem retém em suas imagens a emoção de uma conquista que eletrizou o mundo há não tanto tempo assim. E ao evitar o ufanismo, tão fácil de ser aplicado nessas narrativas, Chazelle deixa que os espectadores tirem suas conclusões no espaço existente entre o indivíduo e o coletividade.

Essa autoconsciência, entretanto, não abandona o caráter espetacular inerente a um filme que conta a história do primeiro homem que pisou na lua. Gradualmente, O Primeiro Homem irá se dividir entre a epopeia da conquista da Lua e a história de um homem que, sem ter como salvar uma filha, deu para todos nós um grande passo para o futuro da humanidade, que ainda engatinha em sua tentativa de conhecer outros mundos. Afinal, todos nós acreditamos que há muito espaço lá fora para não se ter ninguém além da gente.


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