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Crítica: Em Chamas, de Lee Chang-dong

19 / nov
Publicado por Ernesto Barros às 21:40

Ah-In Yoo, Jong-seo Jeon e Steven Yeun. Foto: Pandora Filmes/Divulgação

Nos últimos 14 anos, o cineasta coreano Lee Chang-dong realizou apenas três longas-metragens. Este tempo entre um e outro filme se reflete no rigor com que todos foram feitos. Em Chamas, seu último trabalho, que esteve na Seleção Oficial do Festival de Cannes deste ano – apesar de ter ficado de fora da premiação, ganhou destaque nas capas da Cahiers du Cinéma e da Positif, as duas principais revistas de cinema da França – está em cartaz nos no Cinema da Fundação/Derby e Museu e no São Luiz.

Tanto quanto Sol Secreto e Poesia – os dois últimos longas que dirigiu, que também estiveram em Cannes e foram lançados no Brasil –, Em Chamas é a expressão de um cinema que consegue unir uma narração sofisticada com o timing dos filmes dos gêneros populares. Como em quase todos os seus filmes – especialmente nesses últimos –, Lee Chang-dong precisa de tempo para enredar os espectadores em suas ficções de múltiplos sentidos. A duração média dos seus filmes beira 2h e meia.

Oito anos separam Em Chamas e Poesia. Mas não pense que ele teve alguma dificuldade para filmar, como tantos cineastas, por algum problema financeiro. Ao contrário, ele passou esses anos escrevendo roteiros obsessivamente. Ao todo, foram 18 histórias, até se concentrar na adaptação do conto Queimando Celeiros, do escritor japonês Haruki Murakami, publicado na inicialmente revista New Yorker e depois no livro The Elephant Vanishes, em 1993.

O projeto, inicialmente uma série de quatro filmes adaptados de Murakami e financiados pela NHK, o mais importante canal de TV do Japão, foi abortado, com Lee Chang-dong assumindo suas rédeas e levando a produção para a Coreia do Sul. Essa obstinação tem sido uma constante no cinema dele, uma ideia que geralmente escapa aos seus personagens, que passam por verdadeiras jornadas de transformação, para o bem ou para o mal, em seus filmes. Em Poesia, uma senhora idosa, que já apresenta sinais de Alzheimer, toma aulas de escrita criativa, depois que um neto é envolvido num estupro de um menina que se suicida, para tentar, se possível, encontrar alguma beleza no mundo.

Em Em Chamas, o jovem Lee Jong-su (Ah-In Yoo), graduado em escrita criativa, ainda vive de subempregos enquanto espera escrever seus primeiros livros. Chang-dong não tem a preocupação de mostrar para o espectador como é difícil a busca pela criação. Ao contrário, ele vai no cerne mesmo é do mistério que está por trás de tudo no mundo, do visível e do invisível, do real e do irreal – do inescapável que nos assombra a todo instante.

Talvez por isso a escolha de seguir a história de Lee Jong-Su, um jovem de 20 e poucos anos, seja ainda mais significativa, porque permite que ele fale do seu país de uma perspectiva inteiramente nova. A primeira meia hora do filme é absolutamente apaixonante quando Lee Jong-su é reconhecido por Shin Hae-mi (Jong-seo Jeon), uma amiga de infância, com quem viverá um prelúdio amoroso, até quando ela vai à África de férias, em busca da “grande fome de conhecimento”.

Quando Hae-Mi volta, acompanhada de Ben (Steven Yeun, da série The Dead Walking), que conheceu no aeroporto, um triângulo amoroso se instala, com as diferenças de classe, não a disputa amorosa, levando o filme para caminhos misteriosos e incertos. A cena chave é quando, sem aviso, Hae-Mi desaparece – como a personagem de Monica Vitti em A Aventura (1960) – e Lee Jong-Su começa a seguir o novo rico Ben, que tem tudo e não parece trabalhar, e dedica a queimar celeiros abandonados.

Com detalhes que deixam o espectador desconfiado do que verá, num ritmo de thriller policial, Em Chamas é daqueles filmes que funcionam como um relógio suíço, num tique-taque perfeito.


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