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Crítica: Sueño Florianópolis, de Ana Katz

19 / nov
Publicado por Ernesto Barros às 21:18

Joaquin Garzon, Mercedes Morán, Gustavo Garzon, Andréa Beltrão e Marco Ricca. Foto: Vitrine Filmes.

Em meados dos anos 1990, o Brasil e a Argentina viveram um pequeno idílio econômico às custas das políticas neoliberais dos dois países, com suas moedas em alta e em relação de igualdade com o dólar. Naquela época, enquanto os brasileiros se refestelavam em delicatessen de importados, os argentinos invadiam o Brasil em busca de praias para passar as férias. O longa-metragem Sueño Florianópolis, da atriz, roteirista e cineasta argentina Ana Katz, em cartaz no Cinema São Luiz, desenvolve-se nesse período, num simpático e sensível olhar para o passado de uma família que vem curtir as praias de Santa Catarina e faz amizade com outra brasileira.

Com esse ponto de partida, poderíamos esperar uma comédia sobre diferenças culturais, a repetir os clichês das suposições entre os que brasileiros acham dos argentinos e vice-versa, numa espécie de competição entre irmãos e hermanos. No entanto, Ana Katz tem muito pouco a dizer sobre isso, com exceção de mostrar que os argentinos gostam mais de ler e os brasileiros de beber e se divertir. O interesse dela reside principalmente em dar uma feição humana aos personagens, tantos os de meia-idade quanto os jovens, que enfrenta suas fragilidades e estão prontos para viver o momento, qualquer que seja ele.

Munida de memórias das viagens que fez ao Brasil na época, Ana e o irmão Daniel, coautor do roteiro, constroem personagens simples e bastante críveis. A família argentina, que corta as estradas do Sul de carro, é formada por dois psicanalistas e dois filhos no final da adolescência. Embora tecnicamente casados, Lucrécia (Mercedes Morán) e Pedro (Gustavo Garzón) vivem separados, um tanto à espera de alguma definição mais íntima entre eles, ao mesmo tempo que vêem os filhos Florência (Manuela Martinez) e Julián (Joaquin Garzon) dando os primeiros tropeços na vida.

Como toda viagem de férias, a dos argentinos é um pouco uma roubada também. Ainda na viagem, Pedro esquece de abastecer o carro suficiente, o que permite que Lucrécia e os filhos sejam ajudados pelo brasileiro Marco (Marco Ricca), que vive do aluguel de casas e pousadas para turistas. Apesar de já terem um casa alugada, os argentinos ficam pasmados com o local e resolvem procurar a ajuda com o novo amigo brasileiro, que os leva para a casa onde mora, ao mesmo tempo que se muda para outra mais próxima, que divide com o filho César (Caio Horowicz) e Larissa (Andréa Beltrão), numa relação semelhante à de Lucrécia e Pedro.

Um dos pretextos da viagem do casal argentino é fazer uma viagem que, de alguma maneira, os fortaleça naquela situação. O aniversário de Lucrécia foi a isca para levar os filhos. Entre festinhas, banhos e aventuras no mar, os casais e seus filhos se misturam emocionalmente, com os pais trocando de posição e César e Lucrécia iniciando um namoro, sem que a diferenças de idiomas provoque grandes transtornos entre eles. Com uma delicadeza palpável nos diálogos e em cada cena, Ana Katz faz dos personagens pessoas de carne e osso, gente como a gente, apaixonantes em suas complexidades.

A diretora se acercou de um elenco primoroso. Mercedes Morán, Gustavo Garzon e Marco Ricca fazem seus papéis com total entendimento dos medos e angústias que carregam. Embora Andréa Beltrão tenha menos tempo de tela, a cena em que sua Larissa e a Lucrécia de Mercedes Morán se despedem vale por quase todo o filme. Com as poucas palavras que trocam, que não dão conta de tudo que gostariam de falar, a sensação provocada por esse encontro de pessoas tão comuns dignifica sobremaneira esse belo Sueño Florianópolis.


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