29
nov

Crítica: As Viúvas, de Steve McQueen

29 / nov
Publicado por Ernesto Barros às 16:20

Elizabeth Debick, Viola Davis, Michelle Rodriguez e Cynthia Erivo. Foto: Fox Films do Brasil

Principal estreia da semana no circuito comercial, o thriller As Viúvas, em cartaz a partir desta quinta-feira (29/11) nos cinemas brasileiros, é um filme que conquista a adesão do espectador em menos de 10 minutos. Em apenas três sequências curtas e quase simultâneas – um homem (branco) e uma mulher (negra) na cama, um assalto mal-sucedido e cenas de três mulheres em conversas com seus respectivos maridos –, o cineasta britânico Steve McQueen faz com que ficamos interessados pelo destino de seus personagens.

Primeiro longa de McQueen após 12 Anos de Escravidão – o primeiro filme dirigido e produzido por um cineasta negro e também o primeiro escrito por um roteirista afro-americano (John Ridley) a ganhar o Oscar de Melhor Filme, em 2014 –, o cineasta se apropria de um gênero popular para falar dos Estados Unidos de hoje, suas questões políticas e de raça e do efeito do governo Trump na consciência de seus habitantes. Sem deixar de fazer um filme que respeita as regras do gênero, McQueen encontra a maneira certa para fazer com que a plateia abra os olhos para o profundo mal-estar da América, enquanto acompanha uma trama policialesca protagonizada por mulheres.

Sim, McQueen e sua corroteirista, a escritora americana Gillian Flynn (de Garota Exemplar e Lugares Escuros), pegaram as personagens e a estrutura do filme de uma antiga série da TV britânica, escrita por Lynda La Plante (recentemente transformada em romance e lançada no Brasil pela Editora Intrínseca), que foi ao ar em 1984, em plena era Thatcher.

Transposta para a realidade de atual de Chicago, maior cidade americana depois Nova York e Los Angeles, o filme mistura a saga das três viúvas (e outra mulher que entra no grupo delas) com uma campanha política para eleger os vereadores da cidade, numa comunidade de maioria negra, mas dominada por uma família irlandesa chefiada por ex-vereador racista e corrupto (Robert Duvall), que quer passar o cetro para o filho (Colin Farrell), igualmente venal quanto o pai, apesar do verniz intelectual de apreciador de arte.

Na superfície da trama, o que ocorre é a tentativa das viúvas em dar cabo de um assalto, que daria para as três terem uma nova vida, já que seus maridos, ladrões em pele de cordeiro, não deixaram nada para elas. A ideia do roubo é de Veronica (Viola Davis), ao descobrir que o amoroso marido, Harry (Liam Neeson), era um notório ladrão de carros-fortes. Ela convida as viúvas Alice (Elizabeth Debicki), Linda (Michelle Rodriguez) e a babá dos filhos desta, a motorista Belle (Cynthia Erivo), para o que seria o próximo assalto do marido.

Além de viverem no fio da navalha, com a polícia mantendo-as em vigilância, elas ainda sofrem com os achaques do candidato a vereador Jamal Manning (Brian Tyree Henry) e de seu psicótico irmão Jettema (Daniel Kaluya, o rapaz de Corra!).

Um sermão de um reverendo negro (Jon Michael Hill) parece ter sido escrito para sintetizar a era Trump, dando à palavra ignorância a chave para o entendimento do que acontece nos Estados Unidos. Graças a seu olhar crítico, uma direção enxuta e sólida, além das interpretações na medida certa, As Viúvas é, sem dúvida, o melhor filme de Steven McQueen.


Veja também