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Crítica: Infiltrado na Klan, de Spike Lee

29 / nov
Publicado por Ernesto Barros às 15:56

Adam Driver e John David Washington. Foto: Universal Pictures

Vencedor do Grande Prêmio do Júri do Festival de Cannes 2018, o longa Infiltrado na Klan, de Spike Lee, em cartaz nos cinemas brasileiros, pode ser considerado o filme do ano. Nenhum filme havia sido, até agora, capaz de formular uma resposta tão contundente quanto hilária à onda de retrocesso político que atingiu os Estados Unidos e, por tabela, vários países que embarcaram na viagem aos confins do obscurantismo.

Embora a situação atual seja preocupante, o filme que passa diante dos nossos olhos todos os dia é uma história do arco da velha. Tanto que Infiltrado na Klan baseia-se numa história verdadeira, situada em 1973, na cidade Colorado Springs, no estado do Colorado. Foi lá que Ron Stallworth, o primeiro policial negro da cidade, teve uma ideia absurda. Ele mal havia entrado na polícia quando resolveu, após um contato telefônico, se infiltrar numa célula da Ku Klux Klan, a organização supremacista branca que renasceu nos Estados Unidos com o governo de Donald Trump.

Espantado com a própria atitude – além de negro, deu seu nome verdadeiro para um dos membros da Ku Klux Klan –, Ron (John David Washington, filho de Denzel, do seriado Ballers) pede a Flip (Adam Driver, o Kylo Ren, de Star Wars: Os Últimos Jedi), um policial judeu, para se infiltrar no grupo e se passar por ele. Esse tom humorístico, tão despropositado numa situação dessas, é desenvolvido por Spike Lee com tal acidez que o filme claramente se refere aos dias de hoje. Até mesmo as palavras usadas por Trump e seguidores são colocadas na boca de David Duke (Topher Grace), o principal líder da Ku Klux Klan naquela época e até os dia de hoje.

Apesar do tom satírico, Infiltrado na Klan desenrola-se quase que por completo como uma investigação, ao seguir as pegadas dos policiais que presenciam reuniões do grupo racista, sessões de tiro-ao-alvo e batismos de novos membros. Numa montagem paralela, Spike Lee intercala duas sequências que, embora tenham clima de suspense, também funcionam como tomada de posição contra o racismo, ao dar voz a um veterano  líder da causa negra (vivido pelo nonagenário ator Harry Belafonte) que conta como o clássico Nascimento de uma Nação (1914), de David Wark Griffith, foi o estopim para que a Ku Klux Klan se aproveitasse e assassinasse vários negros.

Para confirmar que sua visão não é gratuita, Spike Lee ainda traz imagens do levante de supremacistas brancos de Charlottesville, na Virgínia, em 2017, que causou a morte de uma mulher. O corajoso cineasta mostra que o responsável pelo aumento de racistas e neonazistas, nos Estados Unidos e no mundo, é ninguém menos que Donald Trump.


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