29
nov

Crítica: Verão, de Kirill Serebrennikov

29 / nov
Publicado por Ernesto Barros às 16:40

Teo Yoo, Irina Starshenbaum e Roman Bilyk. Foto: Imovision/Divulgação

Em cartaz no Cinema da Fundação/Museu, em Casa Forte, até a próxima quarta-feira (5/12), o longa-metragem  russo (coproduzido com a França) Verão, de Kirill Serebrennikov é a maior surpresa cinematográfica de 2018 (ao lado de Infiltrado na Klan, de Spike Lee, está entre os melhores do ano). Maior sensação de público e crítica no Festival de Cannes desse ano, Verão primeiro chamou a atenção por causa da ausência de Serebrennikov na Croisette. O diretor está em prisão domiciliar em Moscou desde agosto do ano passado, em virtude de acusações de desvio de recursos do Teatro Gogol, onde é diretor.

Sem apresentar provas concretas do crime do cineasta, o governo do presidente Vladimir Putin tem sido acusado de retaliação por causa do posicionamento de Serebrennikov, que tem peitado a onda conservadora do País em filmes que tocam em temas tabus como sexo, religião e liberdade – como Verão, uma ode ao rock’n’roll e ao amor, inspirada na cena underground musical de Leningrado (atual São Petersburgo), na década de 1980, sob a pesada vigilância do Partido Comunista da então República Socialista da União Soviética.

Filmado em preto e branco e ocasionais cenas em cores, Verão é um tour de force técnico e artístico, realizado por um cineasta no completo domínio dos seus meios criativos. De forma livre, apesar de adaptado de um relato verdadeiro, o filme acompanha o encontro dos dois principais nomes do rock soviético de todos os tempos, o experiente Mike Naumenko (Roman Bilyk), da banda Zoopark, e o talentoso jovem Viktor Tsoy (Teo Yoo), que formaria a banda Kinò. Entre eles, flutua Natasha (Irina Starshenbaum), namorada de Naumenko, com quem teve um filho, e que manteve uma relação afetivamente íntima com Tsoy.

Kirill Serebrennikov não se esquiva em mostrar como os músicos eram tratados pela censura, que vigiavam cada linha escrita, como também impedia qualquer manifestação nos shows. A plateia era obrigada a ficar sentada. Os músicos tocavam baixinho. Até levantar um cartaz com um coração desenhado era proibido.

Para subverter essa estado de coisas, o cineasta recria a época com todo o fulgor da juventude dos roqueiros e punks de Leningrado. Ele relativiza a realidade daquela época ao mostrar que algumas situações poderiam ter acontecido de outra maneira. Para ilustrar o afã libertário, próprio de um verão de amor e rock, o filme intercala a trama com homenagens aos maiores hinos do rock, por meio de visualizações selvagens de clássicos com Psycho Killer, Perfect Day, The Passenger e All The Young Dudes. Um filme obrigatório.


Veja também