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Crítica: Guerra Fria, de Pawel Pawlikowski

11 / fev
Publicado por Ernesto Barros às 19:11

Tomasz Kot e Joanna Kulig. Foto: California Films/Divulgação

A disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro está mais excitante do que a seleção dos nove títulos escolhidos pela Academia para concorrer ao Melhor Filme do Ano. Depois do mexicano Roma (2018), em cartaz permanente na Netflix e do japonês Assunto de Família (Manbiki Kazoku, 2018), em cartaz no Cinema da Fundação/Museu, estreia  outro forte candidato à estatueta da categoria, o longa polonês Guerra Fria (Cold War, 2018), que também foi indicado para disputar os Oscars de Melhor Diretor (Pawel Pawlikowski) e Melhor Fotografia (Lukasz Zal).

Filme romântico de tintas trágicas, Guerra Fria remete ao conflito bélico que marcou o século 20. Mas, contradizendo os livros de história, a política dos sentimentos também tem algo para nos ensinar. E a lição que Pawlikowski nos ensina em Guerra Fria, numa trama inspirada no relacionamento conturbador dos pais, é de que o sofrimento pessoal e coletivo são faces de uma mesma moeda.

Guerra Fria é o segundo filme que o cineasta roda em seu país natal, depois de anos morando na Inglaterra. Em Ida (2013), Pawlikowski também olhou para as feridas do seu país de nascimento durante e depois da Segunda Guerra Mundial, ao contar a história de uma noviça que descobre que, na verdade, é filha de judeus que foram assassinados pelos próprios vizinhos.

Da mesma maneira que Ida, Guerra Fria foi filmado num suntuoso preto e branco e na proporção retangular dos filmes antigos. Mais do que no primeiro filme, a cor e o formato se ajustaram perfeitamente às intenções dele em filmar uma história de amor em tempos de guerra. Longe de ser um modismo, o apuro visual do filme não se sobrepõe a trama um tanto rarefeita e pesada do filme.

Guerra Fria se desenrola ao longo de cerca de 15 anos, entre 1949 e 1964, quando o pianista Wiktor (Tomasz Kot) conhece a camponesa Zula (Joanna Kulig) durante uma campanha do governo polonês para gravar canções populares, no sentido de unificar a nação e mantê-la dentro dos parâmetros impostos pelo Partido Comunista, de acordo com as diretrizes de Moscou.

A paixão à primeira vista une em pouco tempo a jovem de bela voz e de passado tempestuoso e o pianista que não aceita a ingerência do estado em sua arte. Já em lados contrários – numa relação professor e aluna –, Zula é honesta quando diz para Wiktor que ela tem a obrigação de delatá-lo a Kaczmarek (Borys Szyc), o gerente do grupo de música e dança a que estão ligados.

As imposições políticas – que ficam insuportáveis quando o grupo é obrigado a seguir as ideias do culto à personalidade e cantar músicas sobre líderes políticos, como Stalin – vão empurrar a decisão do casal em direção a uma tentativa de fuga quando visitam Berlim. A partir daí, Wiktor e Zula vão viver uma paixão à distância e dividida, marcada por dores, ressentimentos e provas de amor acima de qualquer suspeita.  Envolto em sombras e desilusão, Guerra Fria é desses filmes que deixam o espectador calado quando termina a sessão.


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