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Crítica: Suspíria, de Luca Guadagnino

11 / abr
Publicado por Ernesto Barros às 15:27

Dakota Johnson (no centrro), numa cena de Suspíria. Foto: Play Arte Pictures.

Desde que Gus Van Sant resolveu fazer um remake de Psicose (Psycho, 1960), de Alfred Hitchcock, sequência por sequência, em 1998, que nenhum diretor havia se atrevido em fazer a nova versão de um filme que, sob vários aspectos, não permitia que sua aura de obra arte de arte única fosse tocada (como uma pintura clássica exposta num museu, por exemplo). Isso parecia verdade até o ano passado, quando Luca Guadagnino, o cineasta que ficou famoso depois do sucesso de Me Chame pelo Seu Nome (Call Me by Your Name, 2017), apresentou sua versão de Suspíria (1977), um dos filmes de terror mais arrebatadores da década de 1970, dirigido pelo compatriota Dario Argento. Suspíria (2018) foi lançado no Festival de Veneza 2018, está em cartaz  no Cinema da Fundação/Derby e Museu, em Casa Forte.

Esta não é a primeira vez que Luca Guadagnino e o roteirista David Kajganich se envolvem numa refilmagem. Há quatro anos, eles fizeram a primeira dobradinha em Um Mergulho do Passado (A Bigger Splash, 2015), um remake do A Piscina (La Piscine, 1969), de Jacques Deray, mais lembrado pela dupla Alain Delon e Romy Schneider no auge da beleza. Sem muito impacto, o filme passou, com toda justiça, despercebido.

Agora, com Suspíria, a vigilância é outra. E, ao contrário de Psicose (Psycho, 1998), que a crítica caiu em cima e destratou Gus Van Sant a ter não poder mais, o novo remake de Guadagnino surpreende pela ambição e, também, por uma certa humildade, pois ele expande um conceito mais histórico, ao fixar-se numa trama complexa e obscura, do que em parecer um êmulo do virtuosismo e da violência explícita de Daria Argento, no que se convencionou chamar de Splatter (o subgênero do terror que reúne os filmes que tem no excesso de sangue derramado, e na cor vermelha, suas principais características).

Produzido originalmente pelo serviço de streaming da Amazon, que, ao contrário da Netflix, lança os filmes primeiro nas telas dos cinemas e só depois no serviço para os assinantes, Suspíria é um filme que exige do espectador um atenção redobrada. Sem atentar para a sanguinolência e os sustos orquestrados por Argento, a história delineia-se em pontos semelhantes do original escrito por Dario Argento e Daria Nicolodi, a partir dos eventos que acontecem numa escola de dança na Alemanha, onde haveria um ninho de bruxas.

Na nova história de David Kajganich, a escola de dança situa-se na Berlim de 1977, quando a cidade estava às voltas com o julgamento dos terroristas do grupo Baader-Meinhoff, e uma das uma bailarinas da escola, Patricia (Chloë Grace Moretz), desaparece misteriosamente. É quando a jovem bailarina americana Susie Bannion (Dakota Johnson, ruiva), chega para tentar uma vaga na prestigiada escola comandada por Madame Blanc (Tilda Swinton). Além de várias subtramas – com a história do psicólogo Dr. Klemperer e flashbacks do passado de Susie –, Suspíria aposta em pontas soltas para enredar o espectador num universo de perversão e dor.

O grande momento, no qual Luca Guadagnino e David Kajganich se deslocam do filme original, é durante um espetáculo de dança que dura cerca de meia hora, uma aposta no grotesco, que subverte quase toda a expectativa gerada desde o seu início. Talvez o maior desequilíbrio de Suspíria seja realmente a dilatação de sua duração – são duas 2h32 minutos de projeção –, que tem como fim a intensificação da espera de sua resolução. Os fãs do gênero terror – e os do filme de Argento – tem toda a razão em – como os de Psicose –, em achar o novo Suspíria um sacrilégio, mas ver o filme não deixa de ser uma experiência cinematográfica bastante interessante, justamente numa época em que partilhar uma sala escura com outros espectadores têm sido quase um privilégio.


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