04
jul

Crítica: Dor e Glória (Dolor y Gloria), de Pedro Almodóvar

04 / jul
Publicado por Ernesto Barros às 6:30

Antonio Banderas e Leonardo Sbaraglia, numa cena de Dor e Glória. Foto: Universal Pictures.

Foram três semanas de espera e ansiedade desde o lançamento no Sul e Sudeste do País. Finalmente, o tormento chega ao fim para os cinéfilos nordestinos, com a estreia de Dor e Glória (Dolor y Gloria, 2019), a mais completa obra-prima do cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que entra em cartaz a partir desta quinta-feira (4/7), no Recife, no Cinema da Fundação/Museu, em Casa Forte, e no Moviemax Rosa e Silva 4, nos Aflitos.

A ansiedade em torno do 21º longa-metragem do cineasta manchego, que completa 70 anos em setembro, teve início na avassaladora acolhida no Festival de Cannes, em maio passado. Embora o filme não tenha levado a cobiçada Palma de Ouro, não obstante toda a “torcida” da crítica, Dor e Glória foi agraciado com o justíssimo prêmio de Melhor Ator para Antonio Banderas, o maior parceiro da carreira de Almodóvar, presente em oito longas-metragens desde Labirinto de Paixões (Laberinto de Pasiones, 1982).

Criador e criatura nunca estiveram tão inseparáveis quanto em Dor e Glória, um filme que, apesar de não ser estritamente autobiográfico, é uma coleção – ou seria um testamento? – de tudo o que Pedro Almodóvar viu, ouviu e viveu, como pessoa e cineasta. De grande apuro formal e de uma austeridade exemplar, sua nova obra é um acerto de contas e uma súmula de toda sua filmografia. Ao longo de Dor e Gloria, percebe-se uma linha direta entre dois dos seus filmes mais pessoais: Má Educação (La Mala Educación, 2004), em que trata da infância passada em instituições religiosas, com todos os abusos já históricos, e A Lei do Desejo (La Ley del Deseo, 1987), sobre um cineasta que se entrega à paixão homoafetiva na Madrid dos anos 1980.

O personagem central de Dor e Glória, o alquebrado cineasta Salvador Mallo (Banderas), quase um anagrama de Almodóvar, é uma síntese dos personagens de Má Educação e de A Lei do Desejo, amalgamados na experiência com a dor tanto do cineasta quanto do seu alter ego. Mesmo que a vida privada deles – principalmente de Almodóvar – seja muito protegida, os dois já relataram o quanto sofreram com os males do corpo (a enxaqueca e a dor de coluna, algozes do cineasta há vários anos, e a condição cardíaca de Banderas, que passou por três cirurgias no coração).

A consciência da dor é o que primeiro conhecemos da vida de Salvador Mallo, um cineasta praticamente aposentado, já recebendo homenagens por sua obra. Quase como num filme científico, de feição enciclopédica e gráfica, ele explica como tem sofrido com as dores de coluna. Até a primeira imagem de Salvador é de quem está numa lenta agonia: de olhos abertos, o cineasta flutua no fundo de uma piscina, até que somos assustados com o detalhe de uma longa cicatriz em suas costas.

Almodóvar surge com uma ideia brilhante para tirar Salvador do seu auto imposto retiro: ao fazer com que seja homenageado pelos 30 anos de seu filme mais conhecido, que foi restaurado e está de volta às telas, ele obriga o cineasta a empreender um movimento ao passado, que lhe permitirá colocar numa balança tudo o que viveu, além das mil e uma surpresas que ainda terá que lidar em suas novas escolhas.

Com rara organicidade e sem apelar para grandes gestos, sutil e minimalista no tom emocional, Almodóvar solta Salvador de volta ao convívio do selvagem ator Alberto Crespo (Asier Etxeandia), a quem até hoje culpa por estragar o longa Sabor, enquanto as memórias da infância explodem em sua mente. De Alberto, que lhe dá cocaína para aplacar as dores de coluna, Salvador acaba renovando os votos de criador, ao escrever um monólogo para ele, enquanto de sua infância reencontra a si mesmo, ao lembrar do menino que foi tocado pela beleza pela primeira vez. A cena em que o pequeno Salvador (Asier Flores) desmaia, ao ver o amigo Albañil Eduardo (César Vicente) enxugando o corpo, é um dos pontos altos da carreira de Almodóvar.

Esse movimento vai levar também Salvador a reencontrar Federico (Leonardo Sbaraglia), o namorado argentino que deixou para trás, porque “o amor não salva tudo”.

As cenas do flashback, que mostram a vida pobre de Salvador e sua mãe, a lavadeira Jacinta (Penélope Cruz), tem sabor de cinema Neorrealista graças à força que Almodóvar dá à paisagem árida e montanhosa do lugar onde moram, uma cova de pedra. O tom ocre e o azul celeste da fotografia de José Luís Alcaine, parceiro desde Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos (Mujeres al Borde de un Ataque de Nervios, 1086), banha o filme com as cores do sonho.

A alternância entre as memórias, tanto da infância quando da juventude, aproxima Dor e Glória a (1963), de Federico Fellini, um retrato ímpar de um cineasta em crise, mas também da própria natureza da criação cinematográfica. Embora com suas semelhanças, é um tanto impróprio querer comparar as duas obras.

Mas não é um disparate afirmar que Pedro Almodóvar acaba de nos legar um filme inteligente e de qualidades evidentes. Poucas vezes um cineasta equacionou uma condição metalinguística em que um filme se materializa diante dos olhos da plateia, como acontece com a nova obra de Salvador, que nos obriga a rever os flashback quanto o cineasta sai de sua letargia e volta a fazer cinema.

De várias maneiras, Dor e Gloria é autocelebração. Afinal, não é todo dia que um cineasta com uma obra pessoal e já inserida na história do cinema tem a chance de chamar a atenção para si mesmo, mas sem traços de egotrip. Dos anos selvagens da Movida Madrilenha à percepção da velhice e da solidão, Almodóvar dá um presente para os amantes incondicionais do cinema de todo o mundo.


Veja também