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Crítica: Um Homem Fiel (L´Homme Fidele), de Louis Garrel

18 / jul
Publicado por Ernesto Barros às 6:10

Laetitia Casta e Louis Garrel, numa cena de Um Homem Fiel. Foto: Supo Mungam/Divulgação

Não deve ser nada fácil para Louis Garrel carregar o peso de sua herança, tanto hereditária – ele é filho de Philippe Garrel, o mais importante cineasta francês pós-Nouvelle Vague – quanto artística – não por acaso, é afilhado de Jean-Pierre Léaud, o ator símbolo de François Truffaut, na série de filmes em que interpreta o personagem Antoine Doinel, iniciado com o clássico Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups, 1959). Principalmente atrás das câmeras, Louis Garrel teve que se virar para mostrar que nem a consanguinidade nem a proteção dos amigos garantiria o seu passaporte de cineasta.

Mas não demorou muito para isso. A prova de que o jovem ator e diretor, de 36 anos, que apareceu num filme pela primeira aos seis, era dotado de um talento especial, já fora sentida em Dois Amigos (Les Deux Amis, 2015), seu primeiro longa-metragem como diretor. Agora, é confirmada em sua segunda empreitada diretorial com o engenhoso, sutil e cirurgicamente bem-executado Um Homem Fiel (L’Homme Fidele, 2018), em cartaz a partir desta quinta-feira (18/7), na Sessão de Arte do Cinépolis Guararapes, em Jaboatão. O filme foi uma das boas surpresas do Festival Varilux de Cinema Francês.

Assim como François Truffaut criou um alter ego para Jena-Pierre Léaud, Louis Garrel segue o mesmo caminho com os seus dois longas: Abel, o personagem de Dois Amigos, está de volta em Um Homem Fiel, que também tem uma trama igualmente movida pelas ambiguidades e possibilidades dos triângulos amorosos. Mas seu novo filme, sem nenhuma dúvida, é surpreendente pela maturidade com que ele articula as engrenagens narrativas, que envolvem o espectador com rara habilidade. Ao adotar uma linha de suspense – branda, mas eficiente –, o cineasta-ator apresenta os perfis de seus personagens enquanto eles vão desvelando quem são verdadeiramente frente a seus desejos, verdades e obsessões.

Para contar essa história, curta e no tempo certo, sem nada fora do lugar – o filme tem a duração de 75 minutos –, Louis Garrel escreveu o roteiro com a colaboração do veterano Jean-Claude Carrière, mais conhecido pela longa parceria com o espanhol Luís Buñuel.

Ainda no prólogo, Abel é apresentado quando é dispensado por Marianne (Laetitia Casta, com quem Garrel é casado), que diz sem qualquer sutileza que está grávida de Paul, um amigo dele, com que ela está tendo um caso há mais de um ano. A história avança para cinco anos depois, quando Abel fica sabendo que Paul havia morrido subitamente, dormindo, e vai ao enterro dele, onde revê Marianne, Ève (Lilly-Rose Depp, filha de Vanessa Paradis e Johnny Depp), a irmã de Paul, que ele viu criança, e de Joseph (Joseph Engel), filho da ex-namorada e do amigo morto.

O que vem a seguir é quase uma roda viva das emoções entre os quatro personagens, com Abel, Marianne e Ève narrando em primeira pessoa suas suposições sobre o que sentem, o que veem e desejam, enquanto o pequeno Joseph inventa mirabolantes teorias sobre a morte do pai, em que a mãe é uma algoz em potencial.

Garrel administra com visível domínio da linguagem e da direção de atores, todos em perfeita sintonia, esse filme pequeno na aparência mas grande em sua ambição. Embora Abel esteja na posição de fidelidade, mas traído e manipulado, as revelações das mulheres de sua vida, e do seu possível filho, nunca são colocadas numa balança. Garrel é de uma honestidade à toda prova ao mostrar que a paixão, qualquer que seja, é um objeto de muitas faces


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