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Crítica: Rafiki, de Wanuri Kahiu

14 / ago
Publicado por Ernesto Barros às 20:31

Samantha Mugatsia e Sheila Munyiva, numa cena de Rafiki. Foto: Ipecine-Olhar Distribuição

A história dos jovens amantes que desafiam a família e a sociedade – suas crenças políticas e religiosas – é conhecida desde o renascimento, quando o dramaturgo inglês William Shakespeare escreveu a tragédia Romeu e Julieta. A peça recebeu inúmeras versões no cinema, a maior parte fiel ao texto, e outras que adaptaram a trama a novos contextos. Talvez a mais surpreendente seja o drama queniano Rafiki (2018),  em  cartaz no Cinema da Fundação/Derby e Museu, em Casa Forte, e no Cinépolis Guararapes, em Jaboatão.

Pela primeira vez, a história não cede à tragédia nem traz como protagonista um casal heterossexual, mas duas meninas de Nairóbi, que se conhecem quando os pais delas disputam uma eleição de vereador. Primeiro filme do Quênia a entrar numa mostra competitiva do Festival Cannes – a Un Certain Regard, no ano passado, – Rafiki também foi dirigido por uma mulher, a cineasta queniana Wanuri Kahiu, que contou com recursos da África do Sul, Alemanha, Holanda, França, Noruega, Líbano e do Reino Unido.

Apesar de todo esse apoio, o filme foi proibido pelo governo por “ter temática homossexual e promover o lesbianismo”. Lá, homossexualismo dá cadeia e os envolvidos podem passar entre cinco e 19 anos presos. A diretora entrou na Justiça e conseguiu a exibição por uma semana, o suficiente para o filme ser habilitado para uma possível indicação pelo país ao Oscar, o que não aconteceu.

Filmado no formato Cinemascope, fotografia vistosa, montagem sincopada e embalado por canções românticas, Rafiki mostra que, ao adotar as características do cinemão, quer fugir de qualquer conotação de que as lutas LGBTs ainda fazem parte de um gueto.

Essa forma convencional, evidentemente, não traduz a realidade da produção queniana, o que faz de Rafiki um exemplo cinematográfico em que os meios justificam os fins. Neste caso, não deixa de ser por uma causa justa.

Para além dessa questão, Rafiki (amiga ou amigo, em suaíli, uma das duas línguas oficiais do Quênia, a outra é o inglês) encanta por vários motivos, a começar pelo misto de sensibilidade e força com que Wanuri Kahiu conduz o encontro entre Kena (Samantha Mugatsia) e Ziki (Sheila Munyiva), que vivem se cruzando pelas ladeiras do bairro até que começam a namorar.

Fica claro que Wanuri Kahiu está se dirigindo ao público feminino quando acentua as diferenças entre Kena e Ziki – uma mais masculinizada, a outra mais feminina, numa estratégia que elimina maiores possibilidade de voyeurismo masculino, como aconteceu com Azul é a Cor Mais Quente (La Vie d’Adèle, 2013), de Abdellatif Kechiche, que ganhou a Palma de Ouro de Cannes, naquele ano.

Apesar da embalagem ser um tanto genérica, Rafiki não escamoteia a realidade do Quênia, e de tantos outros países – não africanos ou do Oriente Médio –, em que a religião dita as regras dos costumes. E o cinema, já sabemos, além de uma arte, é também uma arma na mão de quem luta por liberdade e igualdade.


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