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Crítica: Era uma Vez… em Hollywood (Once Upon a time… in Hollywood), de Quentin Tarantino

15 / ago
Publicado por Ernesto Barros às 5:32

Brad Pitt e Leonardo DiCaprio, numa cena de Era uma Vez… em Hollywood, de Quentin Tarantino. Foto: Sony Pictures

Aos 56 anos, o cineasta americano Quentin Tarantino está prestes a se aposentar: só falta mais um título, o 10º de sua carreira – possivelmente o próximo longa da franquia Jornada nas Estrelas – para ele dirigir e depois curtir seus dias assistindo a velhos filmes em sua sala de cinema, The New Beverly, em Los Angeles. Mas, agora, o que importa é aproveitar o que Tarantino tem a dizer no seu nono longa-metragem, o melancólico, nostálgico e quase western crepuscular Era uma Vez… em Hollywood (Once One a Time… in Hollywood, 2019), que estreia nesta quinta-feira (15/8) em circuito nacional.

Quem acompanha a sua já longeva carreira, iniciada com dois filmes poderosos e seminais, Cães de Aluguel (Reservoir Dogs, 1992), e Pulp Fiction – Tempo de Violência (Pulp Fiction, 1994), seguido por mais outros seis, que o inscreveram como o cineasta americano mais influente de sua geração, sabe que o mundo dele se resume aos filmes que viu. Mesmo os que se passam no presente parecem feitos por alguém que só tinha olhos para o passado do cinema, principalmente os filmes B de faroeste e policiais e as produções estrangeiras populares, dos spaghetti westerns italianos aos filmes de Kung Fu orientais.

Todo esse cadinho de referências entrou em ebulição mais uma vez e o resultado é Era uma Vez… em Hollywood, seu filme mais pessoal. Embora tenha contado histórias situadas no passado – como westerns e filmes de guerra –, agora Tarantino se prontificou a falar de suas memórias, do tempo em que seus olhos infantis foram indelevelmente marcados pelo começou do fim de uma era.

Como uma máquina que moldou sonhos e visões que dominaram o mundo, Tarantino acredita que o cinema americano nunca mais foi mais o mesmo a partir de 1969. Para traduzir esse sentimento de que Hollywood estava se despedindo de um estilo de vida, ele conta a história de um ator em decadência e do dublê que o acompanha há quase uma década – e que tenta segurar as pontas do amigo, ora como motorista, ora como faz tudo.

Para marcar ainda mais o fundo do poço da Cidade dos Sonhos, o cineasta assinala-a por meio dos acontecimentos em torno da vida da atriz Sharon Tate (revivida com graça e inocência por Margot Robbie), casada com o cineasta Roman Polanski, que foi assassinada por de jovens da família comandada por Charles Manson, em 9 de agosto daquele ano.

Era uma Vez… em Hollywood acompanha a tomada de consciência do ator Rick Dalton (Leonardo DiCaprio), que percebe, com os próprios olhos e conversas com amigos, que está caindo no esquecimento. De protagonista, passa a fazer participações como vilão em seriados dos outros. Para seguir em frente todos os dias, conta com a amizade canina de Cliff Booth (Brad Pitt), seu dublê.

A partir de uma estrutura narrativa sem muita rigidez – seus diálogos espirituosos surgem de maneira comedida –, Tarantino se compraz em reconstituir como era um dia em Hollywood. A única concessão parecer ser a mistura de personagens fictícios e reais, porque todo o resto parece uma Polaroide da Los Angeles daqueles dias, com suas filmagens, reuniões entres atores e agentes,idas aos cinema, festas na Mansão da Playboy, além do sussurro das estações de TV e rádio, com propagandas ininterruptas filmes e música pop no ar.

Com Bastardos Inglórios (Inglorious Basterds, 2009) e Django Livre (Django Lives, 2012), Era uma Vez.. em Hollywood completa uma trilogia em que Tarantino reconta a história, como se pudesse interferir nas coisas ruins que aconteceram no mundo. Aos contrário dos dois filmes supracitados, em virtude de sua distância temporal, este último vem carregado de desilusão e tristeza, com seus caubóis em retirada de um mundo que já não pertencem mais a eles, como os velhos vaqueiros de Pistoleiros do Entardecer (Ride the High Country, 1962), de Sam Peckinpah.

Apesar de quase se comparar a uma música de uma nota só, finalizada por uma coda tonitruante em que a boa e velha violência dá as caras, Tarantino permite-se um ou outro motivo de leveza, principalmente no hilário encontro entre o ator Bruce Lee (vivido por Mike Moh) e o dublê Cliff Booth, e no encontro entre o ator Rick Dalton e uma atriz-mirim, na filmagem de um episódio de seriado. Os outros, mais curiosos do que qualquer outra coisa, são os filmes inventados em que Dalton atuou na TV e numa temporada na Itália, quando foi convencido por um agente (Al Pacino, que aparece em pouco mais de três cenas) a fazer filmes por lá.

Com 2h45 minutos de duração, sem pressa e com tempo para explorar Los Angeles em panorâmicas lentas e descritivos movimentos lentos, Era uma vez… em Hollywood talvez vá decepcionar os fãs mais hardcore de Tarantino, pelo menos em boa parte de suas duas horas iniciais. É, certamente, o preço a pagar pelos excessos cometidos ao longo dos anos.

Sem dúvida, a sobriedade e uma preocupação verdadeira com seus personagens, que parecem gente de verdade, trazem uma nova sensibilidade para o seu cinema, algo que equilibra tanto sua vida íntima, povoada de filmes, e a realidade do dia a dia.
Como sempre, o elenco dos seus filmes tem uma coesão rara e com  não é diferente. Leonardo DiCaprio e Brad Pitt, que estiveram à frente dos seus últimos filmes, como também Margot Robbie, interpretam à perfeição os seus personagens.


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