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IT – Capítulo 2 (It Chapter Two, 2019), de Andy Muschietti

04 / set
Publicado por Ernesto Barros às 18:56

Bill Skarsgård, numa cena de It – Capítulo 2. Foto: New Line/Warner Bros

Sabe aquele menino que você chamava para jogar e ele acertava todas as bolas no gol. Mas que, no outro dia, quando voltava para jogar parecia o maior perna de pau. É mais ou menos isso o que aconteceu com o mezzo argentino mezzo espanhol Andy Muschietti, que confirma que It – A Coisa (It, 2017) foi pura sorte de principiante. A continuação da adaptação da obra-prima de Stephen King, chamada It – Capítulo 2 (It Chapter Two, 2019), que estreia nesta quinta-feira (5/9), mostra que o cineasta deixou a modéstia de lado e quis fazer um grande filme, inclusive no tempo de duração.

Como hoje tudo se transformou num evento, com seguidores e um séquito de fãs ardorosos, os filmes parecem que são feitos para agradar à maior quantidade possível de pessoas. Com a trilha aberta pelo seriado Stranger Things, da Netflix, It – A Coisa chegou com a bola quicando. Muschietti, que já havia se exercitado bem com Mama (2013), estava no lugar certo para reger o universo do palhaço Pennywise e suas vítimas adolescentes da cidadezinha de Derry, no Maine.

Dois anos depois, Muschietti chega com um filme tão inflado que parece ter sido adaptado página à página do original de Stephen King. Embora o primeiro filme já tivesse uma metragem considerável (2h15), as 2h50 de It – Capítulo 2 parecem um tanto despropositadas, tanto que o filme começa a terminar quando atinge duas horas. Justamente aí, você vai começar a olhar para o relógio ou para o celular por quase uma hora, como se estivesse acompanhando uma história sem fim.

Apesar dos excessos de zelo e da autoindulgência, não se pode dizer Andy Muschietti cometeu um desastre. Talvez o respeito canino ao original de Stephen King, por parte do roteirista Gary Dauberman, obrigou-o a fazer um filme mais ambicioso. Pesou, também, o filme ser uma espécie de dois em um, com uma trama acontecendo no presente, mas entrecortada por longos flashbacks.

Neste capítulo dois, os amigos do “Clube dos Perdedores” voltam a se encontrar em Derry, 27 anos depois que eles ficaram marcados pelo tenebroso palhaço Pennywise (uma ótima caracterização do sueco Bill Skarsgård). Mike Hanlon (Isaiah Mustafa), o único da turma que não saiu da cidade, testemunha a volta do palhaço quando corpos mutilados voltam aos noticiários.  Assim, ele faz ligações para cada um dos amigos, que quase não lembram dele, para honrar o juramento que fizeram no passado.

Sem medo de feliz nem se preocupar com a metragem, Andy Muschietti apresenta detalhadamente cada um dos personagens até o reencontro em Derry. Mas não apenas isso, o passado volta à tona para que eles relembrem de momentos que estavam esquecidos. Com isso, os personagens se multiplicam e filme fica muito esquemático, principalmente quando eles têm que pegar um objeto do passado que vai fazer parte da tentativa de vencerem Pennywise.

Todo o elenco infantojuvenil, que cativou a todos no filme anterior, reaparece em cenas da década de 1980. A escolha do elenco de adultos talvez seja o ponto alto do filme, com exceção de um único ator. Não poderia ser outra atriz se não Jessica Chastain que fizesse a versão adulta de Beverly Marsh (Sophia Lillis, na versão jovem).

Mas James McAvoy jamais deveria fazer Bill, um menino que gagueja. Na primeira cena em que ele faz isso, tem-se a impressão que McAvoy saiu direto de Fragmentado (Split, 2016), em que Hedwig, uma de suas personalidades, falava com a língua presa e gaguejava.

Repetitivo, com cenas de perseguição sem fim, o filme se torna cansativo. Evidentemente, Muschietti pontua a narrativa com os sustos de praxe, alguns tão telegrafados que dá para saber com certa antecedência. Talvez uma versão mais enxuta, mais focada nos acontecimentos atuais, tornassem o filme mais efetivo, envolvente e sem tantos penduricalhos.


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