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Crítica: Coringa (Joker), de Todd Phillips

02 / out
Publicado por Ernesto Barros às 5:29

Joaquin Phoenix em Coringa. Foto: Warner Bros./Divulgação

Embora o Festival de Veneza venha a cada ano sendo dominado pelas produções americanas, que agora utilizam o mais antigo festival de cinema do mundo como base de lançamento dos filmes que almejam o Oscar, o certo é que não deixou de ser uma grande surpresa o Leão de Ouro dado ao longa-metragem Coringa (Joker, 2019), de Todd Phillips. Depois de quase um mês de muito falatório na imprensa mundial – entre eles o do filme influenciar ataques de incels (a sigla em inglês para “celibatários involuntários”), os homens brancos que se veem injustiçados, com base até numa rejeição feminina, e adotam um discurso de ódio e machismo, especialmente nas redes sociais –, o filme tem pré-estreia nos cinemas brasileiros em sessões à meia-noite, na virada de hoje para amanhã (quinta, 3/10), quando o filme entra em cartaz oficialmente. Na sexta, Coringa estreia nos Estados Unidos.

Qualquer espectador com um mínimo de discernimento vai perceber, ainda nos primeiros minutos do filme, que o “sofrimento” dos incels não se compara ao calvário psicológico e físico vivido por Arthur Fleck (Joaquin Phoenix, numa interpretação magistral), um homem com sérios problemas mentais, que se transforma numa bomba-relógio de dor e ressentimento até a sua estrepitosa explosão como Coringa, um dos principais inimigos de Batman e Gotham City. Assim como os filmes da trilogia de Batman, desenvolvida por Christopher Nolan entre 2005 e 2012, o filme de Todd Phillips também se passa num clima de convulsão social, um reflexo do que se passa no mundo quase desde o início da década.

Quando a diretora argentina Lucrécia Martel, presidente do júri do Festival de Veneza deste ano, anunciou o Coringa como vencedor, ela declarou que “o filme é um poderoso retrato do nosso tempo, feito com grande habilidade e talento.” Talvez ela tenha falado isso quase como um mea-culpa por considerar que o prêmio para um filme com um personagem saído das histórias em quadrinhos americanas – no apogeu da era Marvel Comics e seus super-heróis tão solares – pudesse manchar a reputação de um festival até outro dia fechado para filmes que circulam apenas nos circuitos alternativos.

Mas, ao contrário do universo Marvel, as adaptações para o cinema do universo DC Comics têm se mostrado extremamente sombrias, bem mais próximas da realidade do que as histórias da sua maior rival. Surpreendentemente, mostrar a transformação do Coringa como um doente desamparado a sofrer violências de todos à sua volta, ganha ares de metáfora da crescente desigualdade e falta de amparo social para uma parcela considerável da população das grandes cidades, sejam ricas ou pobres.

Distante do habitat de suas comédias, Todd Phillips, também autor do roteiro, ao lado de Scott Silver, acertou em quase tudo ao fazer de Coringa uma obra de grande impacto visual e dramático. Ao situar a trama em 1981, ele traz para o seu filme a crueza e o pessimismo do cinema americano da década anterior, especialmente de Taxi Driver (1976), de Martin Scorsese. Ele liga Arthur Fleck a Travis Bickle, o motorista de táxi vivido por Robert De Niro, que também faz um personagem importante em Coringa, como “os homens solitários de Deus”.

Gotham City também nunca foi tão Nova York como em Coringa. Tirando o Asilo Arkham, Gotham é a Big Apple, com suas ruas escuras, pardieiros, tráfego intenso, estações de metrô lotadas e sua multidão solitária. Na trilha sonora, o domínio não poderia ser outro senão de Frank Sinatra, the Voice. A trilha sonora original da islandesa Hildur Guðnadóttir é espantosa – preenche todos os espaços do filme, com sintetizadores que imitam timbres de violoncelos lúgubres e lancinantes.

Como se trata do Coringa, que até então era apenas uma figura imaginada, o personagem surge quase como uma pessoa de verdade, não uma personagem de cartum. Sua condição mental, que ela trata sob auspícios de um estado à beira da falência, marca uma trajetória pontuada por agressões, bullying e tormentos inomináveis. Todd Phillips cria, com notável inteligência, elementos que demonstram como uma mente perturbada percebe e constrói a realidade.

Joaquin Phoenix, certamente no papel que vai marcar sua carreira para sempre, toma o Coringa para si de uma maneira que assustaria qualquer ator, apesar de ele já ter demonstrado uma profunda capacidade em se deixar anular para fingir ser outra pessoa, com já visto em O Mestre (The Master, 2012), em Ela (Her, 2013) e em Você Nunca Esteve Realmente Aqui (You Were Never Really Here , 2017), que lhe deu o prêmio de Melhor Ator em Cannes.

A impressão que se tem é que ele conseguiu abandonar a própria personalidade para deixar aflorar o Coringa, da mesma maneira como Flaubert dizia que “Madame Bovary sou eu”. Já indicado três vezes ao Oscar, a expectativa é que Joaquin Phoenix dessa vez leva sua estatueta para casa, o que seria totalmente justo, pois sua performance é digna de muitos prêmios.


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