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Crítica: Parasita (Gisaengchung), de Bong Joon-ho

07 / nov
Publicado por Ernesto Barros às 5:57

Cena de Parasita. Foto: Alpha Filmes-Pandora Filmes/Divulgação

O cinema ganhou foros de arte política quando estava começando a falar e conquistar as massas. Até hoje, os jovens cineastas ainda aprendem as lições do cinema soviético dos anos 1920. Essa ligação umbilical do fazer cinematográfico com a política – e, por tabela, com a sociedade –, está com a carga toda novamente. Nos últimos dois anos, o Festival de Cannes premiou dois filmes orientais – um japonês, outro sul-coreano – que mostram em letras garrafais que, embora venha de países muitos ricos, o capitalismo tem deixado uma parte de suas populações na miséria, forçando-a a uma vida invisível e subterrânea.

Depois do japonês Assunto de Família (Manbiki Kazoku, 2018), de Hirokazu Kore-eda, em que uma família agregada de pobres sobrevivia roubando shoppings, o Festival de Cannes repetiu sua Palma de Ouro, este ano, para o sul-coreano Parasita (Gisaengchung, 2019), do sul-coreano Bong Joon-ho, que estreia nesta quinta-feira (06/11) em circuito nacional, no qual família pobre, sem emprego e sem esperança, tenta sobreviver ao tirar um pouquinho dos ricos.

Em Parasita, o abismo das classes sociais é visto de uma maneira menos fatalista que em Assunto de Família. Para Bong Joon-ho, o tom de fábula anti-capitalista permite explorar melhor o clima de revolta generaliza que vem implodindo o mundo, principalmente abaixo da linha do Equador, como comprova o brasileiro Bacurau (2019), de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, igualmente premiado em Cannes e também uma luta de foice entre oprimidos e opressores.

Mestre do mèlange de gêneros – já exemplificado em filmes absurdamente eficientes como O Hospedeiro (Gwoemul, 2016) e Mother – A Busca pela Verdade (Madeo , 2009) –, Bong Joon-ho faz com Parasita seu filme de maior abrangência, mas com todas as características que o tornaram um dos cineastas mais importantes do cinema contemporâneo. Além da técnica cinematográfica impecável, ele é um contador de histórias sem par, daquelas que pegam o espectador pelo colarinho e não soltam mais.

Em Parasita, a família Kim (algo como os Silvas brasileiros), formada por pai, mãe e um casal de filhos, mora num subsolo, sem direito a emprego e escola. A chance que aparece é quando o filho, Ki-woo (Choi Woo-sik) é indicado por um amigo para ensinar inglês à filha adolescente do rico casal Park. Visando a sobrevivência de toda a família, o rapaz traz irmã, pai e mãe para o seio da família Park, sem que ela saiba disso.

O contraste entre a miséria e a opulência das duas famílias, as surpresas sem-fim e as mirabolantes viradas de roteiro, uma marca de Bong Joon-ho, fazem de Parasita um carrossel de emoções fortes. A mistura de violência, medo, humor e dor, um verdadeiro coquetel de ingredientes aparentemente dissonantes, que se casam perfeitamente no filme, um exemplo do melhor cinema feito hoje no mundo.


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