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Crítica: Os Miseráveis, de Ladj Ly

16 / jan
Publicado por Ernesto Barros às 15:48

Cena de Os Miseráveis. Foto: Diamond Films/Divulgação

Desde a década de 1990 que um filme francês não se mostrava tão urgente em mostrar a realidade dos subúrbios parisienses. Até hoje, O Ódio (La Haine, 1995), de Mathieu Kassovitz, permanecia impávido como a melhor tradução do barril de pólvora étnico e religioso que a França se tornou nas últimas décadas, especialmente os subúrbios de sua capital. Quase 25 anos depois, essa primazia passa a ser dividida com Os Miseráveis (Les Misérables, 2019), de Ladj Ly, em cartaz a partir de desta quinta-feira (16/1), no Cinema da Fundação/Derby.

Para os brasileiros, Os Miseráveis se tornou uma curiosidade a ser verificada: que filme é esse que dividiu o Prêmio de Júri com Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, no Festival de Cannes do ano passado? Os dois longas, inclusive, ficaram no Top Ten da prestigiada revista Cahiers du Cinéma: Bacurau, em quarto lugar, e Os Miseráveis, em sétimo. Na segunda-feira, a Academia de Hollywood escolheu o filme para disputar o Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional.

Nada mais justo o interesse e as premiações para Os Miseráveis, o primeiro longa-metragem do documentarista Ladj Ly, 39 anos, nascido e criado bairro de Montfermeil, onde o escritor Victor Hugo escreveu o monumental romance homônimo, publicado em 1862, sua obra mais conhecida e que já teve inúmeras adaptações para o cinema. Inicialmente um curta-metragem, realizado em 2018, Ladj Ly fez o longa como uma projeção do romance de Hugo para o século 21, especialmente as condições em que jovens e crianças de origem africana e de religião muçulmana, que povoam o bairro por completo e vivem à margem da sociedade francesa.

Não se trata, porém, de um filme com alguma tese a provar. A situação que o filme apresenta, que decorre durante menos de um dia pelas ruas de Montfermeil, é como uma polaroide do bairro, onde a polícia não tem a mínima condição de controlar o caos circundante, seja pela proliferação de gangues ou pelas diferentes raças que lutam para viver no mesmo espaço.

Em linhas gerais, Os Miseráveis é um thriller policial urbano sem os clichês que já conhecemos tantos em filmes como em séries de TV. Documentarista especializado em captar batidas policiais (copwatch), Ladj Ly acompanha um esquadrão anticrime pelas ruas do bairro, por meio da ação de três investigadores.

Um deles, Stéphane (Damien Bonnard, de Na Vertical, de Alain Guiraudie), é transferido de uma delegacia do interior para Paris, onde pode ficar mais perto do filho, que mora com a mãe. No seu primeiro dia trabalho, ele cai logo nas mãos de Chris (Alexis Manenti), um policial branco que trata todos os negros, seja homem, menino e menina, como se fossem ladrões, traficantes ou prostitutas. O outro companheiro, Gwada (Djibril Zonga), negro e muçulmano, nasceu do bairro e tenta, ao menos, equilibrar a violência de Chris.

Circulando da delegacia às ruas, os policias vão se encontrando com os moradores mais conhecidos, do “prefeito” aos meninos que não param de fazer presepadas, como Issa (Issa Perica), que primeiro é visto na cadeia, quando o pai vai buscá-lo, até que rouba um leão de um circo de ciganos. A partir da caça ao filhote de leão, Os Miseráveis toma um rumo que faz o filme se transformar numa fogueira de ressentimentos.

Tendo Issa como símbolo maior do lugar, o personagem faz a ligação pretendida com os miseráveis da França do século 18, criados por Hugo, especialmente Gavroche, um menino que circulava entre trincheiras e revolucionários, cantando e recolhendo projéteis. O personagem entrou de tal maneira na vida dos franceses que o seu nome ganhou status de adjetivo para inteligente, corajoso e irreverente.

Com muita propriedade e uma rara precisão de roteiro e montagem, Ladj Ly intercala as ações dos policiais com cenas cotidianas do bairro, tanto dos adultos quanto dos jovens. Um deles, que passa o dia com um drone vigiando o bairro, consegue gravar um momento em que os policiais, durante um cerco, acabam cometendo um ato de violência.

A partir desse momento, o filme entra num terreno movediço e cada sequência é uma surpresa, que deixam os espectadores vidrados, quase sem pestanejar. Sempre com a câmera em movimento, Os Miseráveis tem a potência de um petardo na consciência dos franceses. Um ponto interessante do filme é o contraste entre o que une e o que separa o País, exemplificado na grande sequência inicial em que os parisienses, de todos os lugares e cores, acorrem para os Champs-Élysées para celebrar a paixão em torno do futebol.

A direção seca e direta de Ladj Ly, desenvolvida na lida com o documentário, não dá espaço para sentimentalismos nem edulcoramento da realidade. Os diálogos, que parecem ter sido escritos por quem conhece a linguagem da ruas, dão ao filme um nível de credibilidade irresistível. Os atores, adultos e crianças, têm a cara de que saiu direto das ruas.

Tecnicamente irrepreensível e socialmente contundente, Os Miseráveis é um filme que não aponta soluções para o caos dos bairros parisienses, mas mostra que a ação da polícia ainda é um desastre, embora não generalize o comportamento dos investigadores. Entretanto, Ladj Ly não deixa de ir fundo no mal estar em que essa configuração social, que não é nova, ainda não foi assimilada pelos policiais brancos. Mas a revolta, essa invenção francesa, é glorificada nesse Os Miseráveis do século 21. Victor Hugo ficaria orgulhoso.


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