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Eram mortes evitáveis

01 / jul
Publicado por Roberta Soares às 19:40

Fotos: Felipe Ribeiro/JC Imagem

 

Mortes evitáveis. João, Misael, Hélio, José, Anderson, Joás, Sebastião, Heleno, Mário. E outros. Todos, sem exceção, poderiam ter tido suas mortes, violentas e na maioria dos casos precoces, evitadas caso o poder público tivesse feito a sua parte. Se tivesse cumprido, ao menos parcialmente, o Plano Diretor Cicloviário (PDC), estudo pronto desde 2014, pago com dinheiro público e que custou quase R$ 1 milhão ao meu e ao seu bolso. O PDC risca infraestrutura cicloviária por toda a cidade do Recife e parte dos municípios da Região Metropolitana, escancarando para quem quiser ver, que muitos dos ciclistas mortos no trânsito estavam em vias que deveriam ter, por critérios do próprio poder público, ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas para protegê-los.

Não foi à toa que na semana passada a Associação Metropolitana de Ciclistas do Grande Recife (Ameciclo), a voz de ciclistas, bicicleteiros e cicloativistas no Estado, engrossou o tom e acusou o governador Paulo Câmara e o prefeito Geraldo Júlio de co-responsáveis pela morte de dois ciclistas e ferimentos graves em um terceiro. “Assim, Geraldo Julio e Paulo Câmara dividem com os/as motoristas a responsabilidade pelo sangue de João e José”, afirmou nas redes sociais, numa referência às mortes, na semana passada, do segundo goleiro do Íbis Sport Club, João Henrique Pedrosa de Lucena, 21 anos, atropelado enquanto pedalava pela Avenida Sul, em Afogados, na área central da capital, e do ciclista José Gustavo Ferreira da Silva, 40, morto na Avenida Professor José dos Anjos, no bairro do Arruda.

 

 

 

O fundamento das acusações dos cicloativistas é justamente a existência do PDC, pago com dinheiro público e elaborado a pedido e sob a gestão do governo de Pernambuco. E os números comprovam o que a entidade argumenta. De um levantamento de nove mortes de ciclistas entre 2016 e 2018, quatro aconteceram em ruas que tinham estrutura cicloviária prevista pelo PDC. E nos outros cinco, embora a via não estivesse indicada no plano para ter ciclovias ou ciclofaixas, ruas próximas têm a indicação.

“Ou seja, o ciclista se arriscou naquele percurso onde morreu porque não havia uma estrutura cicloviária perto. Se houvesse, a maioria estaria usando. Mas por não ser implantada, quem pedala é obrigado a fazer arrodeios na rota para tentar encontrar vias mais calmas, menos perigosas”, constata Roderick Jordão, da Ameciclo. Num dos casos citados pela entidade, o do ciclista Anderson Pedro da Silva, morto por um motorista de ônibus até hoje não-identificado, no Fundão, Zona Norte do Recife, a via onde o atropelamento aconteceu é a que, nas contagens da Ameciclo, mais recebe ciclistas na cidade do Recife: A Avenida Beberibe, com 3.700 pessoas pedalando diariamente por ela. E, pelo PDC, o corredor deveria ter uma ciclovia metropolitana, ou seja, de responsabilidade do governo de Pernambuco.

O governo do Estado e a Prefeitura do Recife estão se omitindo e deixando as pessoas morrerem. Ignoram o PDC. É fato que as ruas que cortam a cidade são as mesmas vias utilizadas pelos ciclistas e nada é feito para protegê-los. O PDC prevê a instalação de infraestrutura cicloviária, mas eles não colocam porque só querem privilegiar o veículo motorizado. Assim, vão jogando o ciclista para o lado, obrigando-o a quebrar caminhos para sair do ponto A e chegar ao ponto B”,

Roderick Jordão, da Ameciclo

 

Foto: Guga Matos/JC Imagem

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Na época, o lançamento e a conclusão do PDC renderam bom marketing para a gestão do então governador Eduardo Campos. Todos apareceram como amigos da bicicleta e defensores de novas opções de mobilidade ativa para a população. Foram três anos de execução para, depois de ser concluído, em 2014, o PDC ser quase esquecido pela gestão pública. Dos 590 quilômetros que deveriam ser implantados na região Metropolitana do Recife até 2024, menos de 10% foi executado. A Região Metropolitana do Recife tem hoje pouco mais de 90 quilômetros de estrutura cicloviária – boa parte má conservada e em lugares afastados, como as Praias de Porto de Galinhas e do Paiva –, e o Recife chega a 50 quilômetros, dos quais apenas 25 quilômetros foram feitos nos últimos seis anos. Só para fazer uma comparação, Fortaleza, no Ceará, ampliou a malha ciclável em 207%, passando de 68 para 207 quilômetros em três anos de gestão.

Quando Hélio morreu, eu disse: outros irão. E foi o que aconteceu. E mais, e mais irão. Enquanto a sociedade não pegar pesado contra o Estado, ele não vai agir. Não vai se importar com a dor, a ausência e a solidão sentida por nós, que ficamos”,

Adriane de Carvalho, viúva do engenheiro eletricista Hélio Almeida, atropelado por um veículo, até hoje não-identificado, em março de 2017

AÇÃO NA JUSTIÇA

“O governo do Estado e a Prefeitura do Recife estão se omitindo e deixando as pessoas morrerem. Ignoram o PDC. É fato que as ruas que cortam a cidade são as mesmas vias utilizadas pelos ciclistas e nada é feito para protegê-los. O PDC prevê a instalação de infraestrutura cicloviária, mas eles não colocam porque só querem privilegiar o veículo motorizado. Assim, vão jogando o ciclista para o lado, obrigando-o a quebrar caminhos para sair do ponto A e chegar ao ponto B. Um exemplo é a Avenida Agamenon Magalhães, que tem uma ciclovia prevista, mas que não será executada. A prefeitura já anunciou que irá implantar uma Faixa Azul sem ciclovia”, critica Roderick Jordão.

Quem faz parte dessa estatística macabra assiste à sequência de atropelamentos com desesperança. “Quando Hélio morreu, eu disse: outros irão. E foi o que aconteceu. E mais, e mais irão. Enquanto a sociedade não pegar pesado contra o Estado, ele não vai agir. Não vai se importar com a dor, a ausência e a solidão sentida por nós, que ficamos”, afirma Adriane de Carvalho, viúva do engenheiro eletricista Hélio Almeida, atropelado enquanto pedalava por um veículo, até hoje não-identificado, em março de 2017. A falta de respostas, de punição e de preocupação em obedecer as regras criadas pelo próprio poder público tem feito com que a viúva pense em entrar, junto com outras famílias de ciclistas atropelados no trânsito, com uma ação civil pública contra o Estado e as prefeituras responsáveis para cobrar indenização pelas mortes e, principalmente, a execução do PDC.

MORTES INCOMODAM PODER PÚBLICO

As mortes de ciclistas em vias da Região Metropolitana do Recife que deveriam ter estrutura cicloviária têm incomodado e constrangido o poder público. Não gera apenas incômodo, mas também impotência. Evidencia a dificuldade enfrentada para fazer o Plano Diretor Cicloviário (PDC) virar realidade. Ser visto como prioridade política de gestão. Esse pelo menos é o sentimento do gerente de ciclomobildade do governo do Estado, Jason Torres, o homem responsável por criar e ampliar as políticas públicas voltadas para a bicicleta em Pernambuco.

A leitura realista do gestor é ainda maior por ele ser um ciclista na prática, não apenas no discurso. Usa a bicicleta como transporte diariamente. “E mesmo que não fosse ciclista estaria na defesa deles. Essas mortes incomodam muito, muito mesmo. Temos lutado para tirar o PDC do papel, tivemos conquistas, mas reconhecemos que falta muito. As dificuldades são muitas e a principal delas é a ausência de projetos, que mesmo na época em que havia recursos para a mobilidade urbana – quando o PDC foi elaborado – não foram feitos. Não temos sequer projetos básicos”, destaca Jason Torres.

Apesar das dificuldades citadas pelo gestor, o Pedala PE, braço do governo que reúne todas as ações e políticas públicas voltadas para a bicicleta, tem mérito diante do pouco que foi feito até hoje de infraestrutura cicloviária na Região Metropolitana do Recife. Uma das melhores rotas para o trabalhador – apesar da descaracterização e dos problemas – é o Eixo Cicloviário Camilo Simões, uma obra executada pelo governo do Estado. Até agora são sete quilômetros construídos e outros cinco quilômetros previstos para o ano que vem, que ligarão o Bairro do Recife à rodovia PE-15, em Olinda. Mas, mesmo assim, representam um investimento total de R$ 5,3 milhões, quantia muito pequena comparada com o que é gasto na implantação e manutenção da estrutura viária para veículos motorizados. Lembrando que o custo de uma estrutura cicloviária representa 1% do custo de construção de uma rua ou rodovia.

Sebastião foi mais um ciclista morto no trânsito do Grande Recife, atravessa a faixa de pedestres quando foi atropelado. Motorista nunca foi punido

Acesse o Plano Diretor Cicloviário da RMR

A Prefeitura do Recife se posicionou sobre o assunto por nota. A Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) lembrou que, desde 2014 oito novas rotas já foram implantadas na cidade, levando em conta as diretrizes do PDC. E que a atual gestão mais do que dobrou a malha ciclável da cidade. Que os projetos implantados priorizam o atendimento aos bairros que abrigam polos de interesse público, como parques, praças, mercados públicos e terminais de ônibus, e que trabalha constantemente na prospecção de novas rotas para compor a malha cicloviária do Recife. Também revelou que o custo médio investido em ciclofaixa, cuja implantação cabe à CTTU, é de R$ 30 mil por quilômetro.


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