Sergio Moro deixa Ministério da Justiça e acusa Bolsonaro de interferência política na PF

José Matheus Santos
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José Matheus Santos
Publicado em 24/04/2020 às 11:43
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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O ministro da Justiça, Sergio Moro, entregou o cargo e está de saída do governo Bolsonaro. O anúncio foi feito por Moro na manhã desta sexta-feira (24) em pronunciamento. 

O estopim para a saída de Moro foi a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo, indicado por Sergio Moro para o cargo. A saída de Valeixo foi oficializada nesta sexta-feira (24) em edição do Diário Oficial da União.

Pronunciamento

Sem citar especificamente o governo Dilma Rousseff, quando começou a Lava Jato, Sergio Moro elogiou a autonomia da Polícia Federal durante governos anteriores a Bolsonaro e disse que isso foi "fundamental" para a apuração do combate à corrupção.

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"O governo da época tinha inúmeros defeitos, mas foi garantida a autonomia da Polícia Federal, por isso, os resultados foram alcançados na Lava Jato", disse Moro.

STF

O ex-juiz da Lava Jato disse também que foi convidado para o cargo de ministro da Justiça no final de 2018. "Foi prometido carta branca", disse Moro sobre nomeação da cargos.

Moro negou que houvesse condição de ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal (STF) quando foi convidado para assumir o Ministério da Justiça. 

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Em pronunciamento, Moro disse que a única condição para assumir o cargo de ministro foi de que se garantisse uma pensão à sua família e falou sobre possibilidade de ser assassinado, com a voz embargada.

O agora ex-ministro da Justiça elencou realizações no cargo de ministro da Justiça e citou a redução da violência em 2019 no Brasil.

Troca na PF

Moro disse que, desde o segundo semestre de 2019, o presidente Jair Bolsonaro queria troca no comando da Polícia Federal.

"Desde o ano passado, houve uma insistência do presidente Jair Bolsonaro para trocar o comando da Polícia Federal e o superintendente no Rio de Janeiro", afirmou Moro.

"A única pessoa que indiquei dentro da PF foi o diretor Maurício Valeixo", disse Moro.

Sergio Moro também disse que cobrou de Bolsonaro uma razão técnica para a troca do comando da Polícia Federal e relatou fala dita ao presidente: "não tenho problema com a troca, presidente, mas preciso de uma causa, um erro grave ou algo assim", disse Moro sobre fala a Bolsonaro. "Mas o trabalho vinha sendo bem feito", avaliou Moro.

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"Com a troca, haveria violação da promessa de que eu teria carta branca. E estaria claro que estaria havendo intervenção política na PF", disse Moro.

Moro também disse que Bolsonaro queria trocar superintendentes da Polícia Federal em estados "sem apresentar razões". 

"Falei ao presidente que (a troca) seria interferência política, e ele disse que seria mesmo", disse Moro.

Moro também disse que Bolsonaro queria ter acesso a relatórios de inteligência da Polícia Federal e que assumiu, em conversas internas, a intenção de intervir politicamente no comando da corporação.

"Também sugeri ao presidente, para evitar mais crise durante a pandemia, que substituísse Valeixo por alguém de perfil técnico. Mas não obtive resposta do presidente, que tem preferência por outros nomes", afirmou Moro

Moro também afirmou que Bolsonaro afirmou que teme inquéritos em andamento no Supremo Tribunal Federal (STF). "Isso também não seria motivo para troca", afirmou. 

Moro disse que a exoneração de Maurício Valeixo do comando da PF não foi a pedido do diretor-geral.

"Não assinei essa exoneração. Fiquei sabendo hoje pelo Diário Oficial da União", disse Moro, que negou ter assinado a exoneração de Valeixo, publicada nesta sexta-feira (24) com sua assinatura.

"Esse último ato (troca na PF) é a sinalização de que o presidente me quer fora do cargo", avaliou. 

Demissão de Valeixo

O diretor-geral da Polícia Federal (PF), Maurício Valeixo, foi exonerado do cargo nesta sexta-feira (24).

A exoneração foi publicada no "Diário Oficial da União" desta sexta-feira (24).

Na quinta-feira (23), Sergio Moro disse ao presidente Jair Bolsonaro que pediria demissão do cargo se houvesse a saída de Valeixo do comando da Polícia Federal, segundo a "Folha de S.Paulo".

Bolsonaro avalia nomear um diretor-geral com mais proximidade a ele. Valeixo era próximo ao ministro Sergio Moro, haja vista que foi superintendente da PF no Paraná durante a operação Lava Jato, quando Moro era o juiz federal responsável pelos processos da operação na primeira instância.

Bolsonaro x Moro

Ao escolher Moro para o cargo, em 2018, Bolsonaro havia prometido "carta-branca", de maneira a que o trabalho do ministro não sofresse interferências. Entretanto, desde então, Bolsonaro e Moro acumulam atritos.

Em agosto de 2019, Bolsonaro já havia feito uma tentativa de trocar o comando da PF, depois de a corporação resistir a uma substituição na superintendência do Rio de Janeiro. A troca chegou a ser anunciada pelo presidente, mas não foi efetivada.

Na ocasião, Bolsonaro disse que "ele (Valeixo) é subordinado a mim, não ao ministro, deixar bem claro isso aí. Eu é que indico, está na lei, o diretor-geral."

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