'Recife lembra como era administrado com as arengas do PT e o que conquistou com Geraldo Julio', diz João Campos

José Matheus Santos
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José Matheus Santos
Publicado em 16/11/2020 às 10:36
Foto: Felipe Ribeiro/JC IMAGEM
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O candidato a prefeito do Recife pelo PSB, João Campos, adotou tom crítico ao PT, da adversária Marília Arraes, em entrevista à Rádio Jornal na manhã desta segunda-feira (16). Os dois candidatos vão se enfrentar nas urnas no dia 29 de novembro, data marcada para o segundo turno das eleições municipais.

João Campos obteve 29,17% (233.028 votos) e Marília Arraes ficou em segundo lugar com 27,95% (223.248 votos).

Mesmo com percentual abaixo dos 30%, João comemorou e classificou o resultado como "expressivo".

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"Quero agradecer a todos que votaram na gente, fiquei muito feliz pela votação que a gente teve, fizemos uma campanha vitoriosa que apontou para o futuro. O Recife, entre o passado e o futuro, vai ficar com o futuro. O recifense lembra como era o Recife administrado com as arengas do PT e o que o Recife conquistou nos últimos 8 anos", disse João, em tom crítico ao partido da adversária na disputa final.

O PT governou o Recife entre 2001 e 2012. Entre 2001 e 2008, o prefeito foi João Paulo, que teve apoio do PSB durante a sua gestão. Entre 2009 e 2012, João da Costa governou a cidade com Milton Coelho (PSB) como vice-prefeito. Nas eleições de 2018 no Estado, João Campos apoiou Fernando Haddad (PT) na disputa pela presidência da República no 1º turno e apoiou Humberto Costa (PT) para o Senado em Pernambuco.

Em 2019, ao visitar Pernambuco depois de ter sido solto, o ex-presidente Lula veio ao Recife e João Campos, junto com a mãe, Renata Campos, foi ao encontro do petista em um hotel no Recife.

Foto: Ricardo Stuckert/Divulgação

João Campos reafirmou o tamanho da coligação encabeçada pelo PSB que tem dez partidos. "Temos que fazer um programa que une muita gente, fizemos uma frente ampla, vamos ampliar ainda mais, como Recife avançou nos últimos anos. Consigo ver muita coisa que Recife anaçou e muita coisa que Recife pode avançar mais. Vejo como posso colocar a minha marca", disse.

O candidato prometeu já a partir desta segunda-feira (16) iniciar a campanha de rua no segundo turno. "Vamos para o porta a porta nos quatro cantos da cidade. Na vida, vence quem junta mais. A gente juntou mais no primeiro turno e mais ainda vamos juntar no segundo turno", afirmou.

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Questionado se estaria aberto a receber apoio de candidatos derrotados no 1º turno, João Campos deixou as portas abertas para quem quiser aderir ao palanque do PSB no 2º turno. Na primeira etapa da eleição, Mendonça Filho (DEM) e Patrícia Domingos (Podemos) ficaram em terceiro e quarto lugares, respectivamente. No entanto, Patrícia Domingos descartou apoiar PSB ou PT no 2º turno. Mendonça Filho ainda vai se manifestar nesta terça-feira (17).

"Vamos conversar sim com aqueles que queiram conversar sobre o Recife, conversar com os partidos da nossa cidade e do nosso estado, fiz uma campanha respeitando todo mundo, não agredindo ninguém porque na vida aprendi a respeitar as pessoas sempre. Tenho convicção que vamos poder ampliar ainda mais a Frente Popular. O momento que o Brasil passa é desafiador, e, para Recife largar na frente, crescer mais que o resto do Brasil e gerar mais emprego, a gente vai ter que juntar, aprendi a fazer política juntando e vamos fazer assim no segundo turno", disse.

O candidato citou o que considera como avanços na gestão do prefeito Geraldo Julio (PSB) e minimizou a pequena aparição do gestor na sua campanha durante o primeiro turno. Geraldo tem alta desaprovação na capital pernambucana, segundo pesquisas.

"O Recife lembra como era a cidade do Recife com o PT, como as arengas do PT prejudicaram nossa cidade. Avançamos nos últimos anos, a gente vê Hospital da Mulher, Hospital do Idoso, Compaz e outros avanços. No segundo turno, o Recife vai comparar o que é a administração do PT e a do PSB, a que tem mais capacidade de unir", disse.

Questionado sobre a participação do PT em governos do PSB e sobre alianças, João Campos disse que quem trouxe essas conquistas para o Recife foi o PSB e não o PT.

"Quem trouxe todas essas conquistas para o Recife foi o PSB e não o PT. Quem comanda a administração do Recife é o PSB."

2º turno no Recife

Foto: Rodolfo Loepert/Divulgação

João Campos

João Campos desde o início da campanha eleitoral, em setembro, se apresentou na liderança nas pesquisas de opinião. O candidato apareceu com cerca de 30 pontos percentuais, entre oscilações positivas e negativas, com estabilidade na posição. A vaga do socialista era considerada praticamente certa em eventual segundo turno na cidade, o que se confirmou, tanto pelos aliados quando pelas candidaturas de oposição.

Isso porque o candidato contou a seu favor, além da máquina da atual gestão, com o maior tempo de TV. Embora tenha o prefeito Geraldo Julio como aliado, a campanha de João Campos evitou utilizar a imagem do mandatário no 1º turno, coincidentemente ao mesmo tempo em que a rejeição do prefeito é considerada elevada, pois 60% dos recifenses desaprovam a sua gestão, segundo o Ibope.

Geraldo Julio é potencial candidato a governador de Pernambuco em 2022 e uma vitória de João Campos no Recife no 2º turno fomentaria o palanque da postulação daqui a dois anos no estado, na sucessão de Paulo Câmara. O PSB governa Pernambuco desde 2007 e pretende ampliar a hegemonia nas próximas eleições estaduais.

O tom da campanha de João Campos no 1º turno foi utilizar projetos de educação, imagens de reuniões com movimentos e de visitas aos bairros e comunidades do Recife. O candidato, de 26 anos de idade, disse que não observa a juventude como um problema, mas sim como "parte de uma solução". Na reta final, estagnado nas pesquisas de intenções de voto, o candidato intensificou o uso da imagem do pai, o ex-governador Eduardo Campos, morto em acidente aéreo em meio à campanha presidencial em 2014.

O governador de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), também não apareceu com frequência nos atos de rua de João Campos, bem como na propaganda eleitoral em veículos de comunicação.

Ao mesmo tempo que opositores se atacavam, a campanha de João Campos evitou partir para o ataque diretamente contra algum adversário no primeiro turno e ficou alheia às trocas de farpas.

João Campos é atualmente deputado federal. Ele foi eleito em 2018 com 460.387, o mais votado de Pernambuco na ocasião. Antes, o agora candidato a prefeito era chefe de gabinete de Paulo Câmara no Governo do Estado. Desde então, o nome de João já era ventilado como o mais cotado para disputar a sucessão de Geraldo Julio no Recife.

O PSB governa o Recife desde 2013 com o prefeito Geraldo Julio. Na primeira eleição, Geraldo foi apadrinhado por Eduardo Campos, pai de João.

A candidata a vice-prefeita na chapa de João é a ex-vereadora Isabella de Roldão (PDT).

Foto: Ricardo Labastier/Divulgação

Marília Arraes

A adversária de João Campos no 2º turno no Recife será Marília Arraes (PT), que também é deputada federal. Em 2018, era foi a segunda mais votada de Pernambuco para o cargo, com 193.108 votos, atrás apenas do socialista.

PT e PSB já se enfrentaram em 2016 na disputa pela prefeitura do Recife. Há quatro anos, o PSB se saiu vitorioso com Geraldo Julio em uma disputa contra o ex-prefeito João Paulo, na ocasião do PT.

No primeiro turno, a campanha de Marília adotou um tom mais branco, evitando o vermelho do PT, para tentar acenar ao eleitorado de centro e evitar eventual antipetismo. No entanto, após os primeiros números das pesquisas mostrarem percentuais de intenções de voto abaixo da casa dos 20%, a candidata passou a explorar mais a cor vermelha, gravou programas eleitorais para rádio e televisão com o ex-presidente Lula e defender legados de gestões do PT no Recife e no Brasil. Além disso, exibiu fotos de Lula com Miguel Arraes, avô da candidata.

A candidata manteve, desde o início até o fim do primeiro turno, o tom crítico à gestão do prefeito Geraldo Julio e ao candidato João Campos. Marília Arraes é da ala petista crítica ao PSB.

Marília tem 12 anos de carreira política e já integrou quadros do PSB. Ela foi eleita vereadora pelo partido em 2008, reeleita em 2012, exerceu o cargo de secretária de Juventude e Qualificação do Recife em 2013, no primeiro ano de mandato de Geraldo Julio, mas deixou a pasta e, no ano seguinte, em embate com Eduardo Campos, se afastou das ideias da legendas.

Em 2014, Marília declarou voto em Dilma Rousseff (PT) para a presidência da República, Armando Monteiro (PTB) para governador e João Paulo (PT) para senador, todos do projeto político contrário a Eduardo Campos na ocasião, e disse que o PSB estava se afastando das suas bandeiras tradicionais até então. Mesmo com o falecimento do primo, em trágico acidente de avião em agosto daquele ano, Marília Arraes manteve seu posicionamento e participou ativamente dos atos de campanha de adversários do PSB.

A petista ainda fez críticas à postura do PSB em 2014, quando o partido, no segundo turno, apoiou Aécio Neves para a presidência. As farpas continuaram em 2016, quando os socialistas apoiaram o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff que culminou com ascensão de Michel Temer ao Palácio do Planalto. Em 2016, no mesmo ano do impeachment, Marília se filiou ao PT com a ficha abonada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em 2018, a então vereadora lançou pré-candidatura ao Governo de Pernambuco e circulou pelo Estado fazendo críticas ao governo de Paulo Câmara. O diretório estadual do PT aprovou a postulação. No entanto, o projeto não vingou, e a candidatura acabou rifada pela cúpula nacional do PT, que fez acordo com o PSB. Em troca, os socialistas retiraram a candidatura de Márcio Lacerda a governador de Minas Gerais e declararam neutralidade na eleição presidencial, isolando o candidato do PDT, Ciro Gomes, como queriam os petistas ligados ao ex-presidente Lula.

Dois anos se passaram e o processo se inverteu. Marília lançou a postulação para a prefeitura sem apoio dos diretórios municipal e estadual do PT, comandados por aliados do senador Humberto Costa, mas prevaleceu a determinação do diretório nacional, bancada pela presidente nacional do partido, Gleisi Hoffmann, e pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

O candidato a vice-prefeito na chapa de Marília Arraes é João Arnaldo (PSOL).

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