Trump, Bolsonaro e a construção de narrativas acerca de fraudes eleitorais

jamildo
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Publicado em 07/01/2021 às 16:00
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Por Rodrigo Augusto Prando, em artigo enviado ao blog

As cenas de 06 de janeiro, nos EUA, com os ataques de apoiadores de Donald Trump que não reconhecem a vitória de Joe Biden, acenderam a luz de alerta para os democratas no mundo todo. Há, aqui no Brasil, evidentes ressonâncias especialmente pela ligação ideológica do bolsonarismo com as teses conspiratórias de Trump.


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Trump foi, por certo, um presidente que aviltou e apequenou a democracia norte-americana. Sua conduta - na campanha e no exercício de seu mandato - esteve alicerçada sobre milhares de fake news, distintas modalidades de negacionismos e pós-verdades e extrema predileção por teorias da conspiração. A derrota de Trump para Biden deu-se no voto popular e no colégio eleitoral, assim, por mais que se afirme que houve fraudes, como fez, incessantemente, Trump, as instituições do país, bem como a mídia que acompanhou o processo eleitoral, atestam e confirmam a legitimidade da vitória de Biden, respectivamente.

Sabidamente, Bolsonaro e os bolsonaristas alinham-se ao estilo confrontador, de ataques às instituições republicanas e da própria democracia. Os exemplos são inúmeros de manifestações que apoiam o fechamento do Congresso Nacional e do Superior Tribunal Federal. Some-se a isso a fala recente de Bolsonaro que "sem voto impresso em 2022, vamos ter problema pior que os EUA".

O que a afirmação do presidente evidencia? Obviamente, é mais uma construção de narrativas com vistas às eleições em 2022. Assim como o lulopetismo, o bolsonarismo é proeminente em construir narrativas e estas são capazes de alimentar o furor da militância mais coesa e ativa.

Não faz muito, Bolsonaro afirmou que o Brasil estaria quebrado, que não consegue fazer nada por isso, visto que há o coronavírus, uma pandemia, potencializada pela mídia. Com este discurso, Bolsonaro quer se eximir das responsabilidades inerentes à condição de presidente, ou seja, de governar e, muitas vezes, de agir, politicamente, no campo de temas impopulares que geram perda de capital político.

No caso atinente à narrativa de que houve fraude nos EUA, Bolsonaro, novamente, volta à carga afirmando que, em 2018, na eleição que foi vitorioso, houve, também, fraude. Segundo provas que afirma possuir, mas que nunca apresentou, ele teria ganhado já no primeiro turno. O Tribunal Superior Eleitoral já, em várias ocasiões, rechaçou essa afirmação bolsonarista, bem como atestou a segurança das urnas eletrônicas.

Vale ressaltar que, na Nova República, nas eleições presidenciais, apenas Fernando Henrique Cardoso ganhou no primeiro turno e foi reeleito no primeiro turno; Collor, Lula, Dilma e o próprio Bolsonaro tiveram as vitórias confirmadas em segundo turno.

Em síntese, além do alerta em relação a situação dos EUA e o ataque aos alicerces da democracia, há que se manter atenção em relação a política discursiva que, no bojo do Bolsonarismo, indica o mesmo caminho dos EUA. Trump foi categórico, ao longo do tempo, em afirmar que não reconheceria a vitória de seu adversário, fosse quem fosse. O trumpismo deixou claro que contestaria juridicamente, a legitimidade das eleições; contestou, ainda, com invasões, violência e até tiros, a cerimônia de reconhecimento da vitória de Biden. Segundo Barack Obama, as cenas de invasão do Capitólio, marcarão a nação pela desonra e vergonha, afirmou que tal postura de Trump não o surpreendeu em nada.

Importante, analiticamente, compreender o desenrolar desta história, aqui e alhures. Veremos se a instituições brasileiras terão a força suficiente para enfrentar um problema que está anunciado e que, provavelmente, se dará, em 2022, na hipótese de uma derrota de Bolsonaro. Veremos.

Rodrigo Augusto Prando é Professor e Pesquisador da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Graduado em Ciências Sociais e Doutor em Sociologia.

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