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Um homem que amava os livros

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Publicado em 26/01/2021 às 21:08
Leitura:

Por Ricardo Leitão, em uma última homenagem a Tarcísio Pereira

Conheci Tarcísio Pereira quando a Livro 7 (seu número da sorte) ocupava uma pequena loja em uma galeria da rua Sete de Setembro, bairro da Boa Vista. Pouco tempo depois, se transferiu para um casarão, do outro lado da rua. Agora os livros tinham a companhia de um bar sombreado, uma loja de discos e um espaço para palestras, debates e lançamentos.

O número de clientes não parava de crescer porque Tarcísio era assim: um mestre na arte preciosa de fazer amigos. Boina azul, camisa azul, calça azul, sabia o gosto de leitura dos mais próximos e, se não tivesse a publicação na livraria, providenciava seu envio imediato por uma editora do Rio ou de São Paulo. Eram os anos 1970 e, até então, esse tipo de atenção inexistia no Recife.

A Livro 7 logo se tornou um ponto de encontro de autores, intelectuais, estudantes, gente que tinha lá um espaço de alívio, um oásis de liberdade em meio à censura e à repressão da ditadura. Entre eles, os poetas da Geração 65, que contavam com Tarcísio como importante promotor de seus trabalhos.

O grande livreiro não parou no casarão. Sempre na rua Sete de Setembro, avançou algumas dezenas de metros no sentido da rua do Riachuelo e alugou enorme galpão, onde instalou o que foi considerada, na época, a maior livraria do Brasil, com milhares de títulos à venda.

Defronte do galpão, na manhã do sábado de Carnaval, se concentrava e tentava sair (às vezes, conseguia) o bloco “Nois sofre, mas nois goza”, fundado por ele para alegrar a vida. Vestido com uma casaca coberta por lantejoulas verdes, Tarcísio comandava a festa.

Relembrar tudo isso me traz uma saudade profunda. A mesma saudade, tenho certeza, que compartilho com outras centenas de amigos de Tarcísio Pereira e os que talvez nunca o tenham conhecido, porém, como ele, amam os livros. Perdemos muito com a sua partida porque era único no honroso ofício de livreiro. Tinha no livro um produto não só para ser vendido, mas uma porta a ser aberta para os mais diversos mundos. Sua missão, exercida com prazer e competência, era entregar a chave da porta.

Trabalhamos juntos nos últimos tempos. Convidei-o para presidir o Conselho Editorial da Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) e, em seguida, para dirigir a Superintendência de Vendas e Marketing da empresa. Como sempre, trazia novas ideias, atento, por exemplo, ao promissor mercado de publicações digitais.

Na última vez que conversamos adiantou que, na semana seguinte, apresentaria um projeto para reduzir os preços dos produtos da Cepe. Era uma maneira de torná-los mais acessíveis às pessoas de menor renda, argumentou. Concordei. Ele se levantou da cadeira, arrumou a boina azul e deu um sorriso. Onde estiver, terá um livro nas mãos.

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