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01, 02, 03, 04 e o papai. Por Ricardo Leitão

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Publicado em 24/03/2021 às 18:50
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Por Ricardo Leitão, em artigo enviado ao blog

Segundo o Datafolha, conceituado instituto de pesquisa de opinião, 67% dos brasileiros acham que a corrupção vai aumentar no País. A expectativa negativa anterior, de dezembro passado, era de 55%.

Bem antes, no início do governo de Jair Bolsonaro, fora de 40%. O pessimismo aferido agora pelo Datafolha é pior entre as mulheres (74%) e os pobres (73%), maiores contingentes da população.

Os índices são ruins para o presidente, que fez do combate à corrupção um dos eixos de sua campanha em 2018. No governo, buscou associar-se ao êxito da Operação Lava Jato, incorporando ao ministério o juiz Sergio Moro, símbolo nacional do combate aos grandes larápios.

A manobra fracassou. Moro, nomeado ministro da Justiça, deixou o governo, criticando interferência ilegal de Bolsonaro na Polícia Federal; o presidente se aliou a parlamentares investigados pela Lava Jato e seus quatro filhos deram o fecho final. Conhecidos como 01, 02, 03 e 04, são suspeitos de desvio de recursos públicos, contratação de funcionários fantasmas, compra de imóveis com pagamento em dinheiro vivo, tráfico de influência e organização de manifestações contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal. Com certeza, tamanha diversidade não haverá em outra família presidencial.

A saber: Jair Renan Bolsonaro, 23 anos, empresário, o filho 04, é investigado pela Polícia Federal, suspeito de tráfico de influência. Teria articulado um encontro de um grupo de empresários amigos com o ministro de Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, para apresentação de um projeto. De acordo com a investigação, pelo serviço Jair Renan recebeu um carro elétrico, no valor estimado de R$ 90 mil.

Eduardo Bolsonaro, 36 anos, deputado federal, o filho 03, tornou-se alvo de uma investigação preliminar da Procuradoria Geral da República sobre o pagamento, em dinheiro vivo, na compra de dois imóveis no Rio de Janeiro. É também investigado pelo Supremo Tribunal Federal pela participação em atos antidemocráticos e já foi interrogado pela Polícia Federal.

Carlos Bolsonaro, 38 anos, vereador no Rio de Janeiro, é o 02. Está sendo investigado pelo Ministério Público Estadual por ter empregado funcionários fantasmas em seu gabinete. Também é alvo da Polícia Federal e do Supremo Tribunal Federal por participação em atos antidemocráticos e organização de redes sociais de ataque aos opositores do governo do pai.

Por fim, Flávio Bolsonaro, 39 anos, senador, o 01. Foi denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro, acusado de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Notável em transações imobiliárias, o seu último feito foi, com o salário de R$ 28 mil de senador, ter adquirido uma mansão em Brasília por R$ 5,9 milhões.

Tais façanhas ganharam o mundo e preocupam o papai, imbatível defensor da lei, da ordem e dos bons costumes. Especialmente as façanhas do 01, o senador Flávio Bolsonaro e suas ligações extra-parlamentares, como os ex-oficiais da Polícia Militar do Rio Fabricio Queiroz e Adriano Magalhães da Nóbrega. Acusado de ser operador financeiro de 01, Queiroz está em prisão domiciliar; Nóbrega, miliciano e assassino de aluguel, foi fuzilado no interior da Bahia.

Com a quebra do sigilo de Queiroz, a polícia descobriu que ele depositou R$ 72 mil na conta da primeira-dama Michelle Bolsonaro. Sua mulher, Márcia de Aguiar Queiroz, depositou mais R$ 17 mil, totalizando R$ 92 mil – dinheiro que Michelle não declarou ao imposto de renda.

A fortuna amelhada por Adriano Magalhães da Nóbrega, ex-capitão do Batalhão de Operações Especiais da PM do Rio, é outro mistério. Para os investigadores, ele deixou um patrimônio de R$ 10 milhões em fazendas, imóveis e dinheiro vivo. Tinha rendimento mensal estimado em R$ 350 mil, resultado da exploração de jogos ilegais, grilagem de terras e venda de apartamentos invadidos em áreas controladas por milicianos. Recebeu condecoração da Assembleia Legislativa do Rio, por iniciativa de Flávio Bolsonaro, e arrancou o seguinte lamento do papai, ao saber de sua morte: “Foi um herói”.

Não foram poucas as especulações de que o fuzilamento de Nóbrega, pela PM da Bahia, seria uma típica operação de queima de arquivo. Nada ficou provado. Sua família não comenta, nem a de Fabricio Queiroz, que se mantém em disciplinada prisão domiciliar. A ligação dos dois com o clã Bolsonaro, porém, alimenta a sensação – captada pela pesquisa do Datafolha – de que há um cheiro de queimado no ar.

Se isso vai incendiar as urnas presidenciais de 2022 e incorporar a corrupção ao debate eleitoral, há de se assuntar a passagem da massaranduba do tempo. Em dias tão tumultuados, Fabricio Queiroz, por exemplo, pode decidir quebrar seu precioso silêncio.

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